Imagem do cabeçalho: "O Grande Canal de Veneza" (detalhe) de Turner
Mostrando postagens com marcador Coleção Particular. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Coleção Particular. Mostrar todas as postagens

domingo, 19 de fevereiro de 2012

COLEÇÃO PARTICULAR (12)

SHOPPING

Não sei por que você tanto compra.
Minto, sei por que você tanto compra:
Por fé. Fé nas coisas fugidias.

Compra pequenas borboletas
Que adejam longe dos cemitérios.
Compra aqueles bichinhos
Que fogem da mata escura.
Compra peixinhos dourados
Que são lançados para fora do rio.
Compra óculos escuros
Para amortecer a visão do tempo.
Compra vendas lúdicas
Para brincar de cabra-cega com a vida.
Compra pais-nossos e ave-marias
Customizados em forma de sapatos,
Bolsas, roupas e aparelhos eletrônicos.
Compra para poder participar
Da romaria, carregando o turíbulo
Do seu perfume confundível
Pelo deambulatório da igreja profana.
Compra pequenas lascas de cruz-neon
Do capital senhor.
Compra a hóstia frita e o copão de 350 ml de vinho
Na abside-praça de alimentação.
Compra, compra, compra, compra
Indulgências baratas,

Porque, e afinal,
Não há lírios do campo
Nas vitrinas enfeitadas
Com a glória de Salomão.


Sigmar Polke, Measuring Clothes, pintura sobre tela, 1994

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

COLEÇÃO PARTICULAR (11)

AVANÇADA

Tinha nos olhos
Um estribilho de canção
Jocosa,
Arejada,
Lhana.

Isto não consentira
À velhice:
Não se fizera penumbra,
Não baixara as persianas.

Alice Neel, Autorretrato, óleo s/ tela, 1980.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

COLEÇÃO PARTICULAR (10)

A TARDE (VISTA DA JANELA)

Seis goiabas
Apodrecem, desterradas,
Sobre telhado de amianto
Seco e sujo.

O sol folheia a ouro
Quinquilharias de metal
Espalhadas pelo quintal
Seco e sujo.

Um beija-flor
Inspeciona, em vão,
Ilhas de verde não-florido.

A sombra rendada de uma árvore
Sobre uma parede amarelo-senil
Devolve a esta a ilusão
De receber tinta fresca.

Uma calça jeans
Pendurada num frouxo varal,
Agita as pernas aflitas e vazias
Como se tivesse pressa de adentrar
Pela noite.

Hans Hartung, Composition T 1973, Óleo s/ tela, 1973

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

COLEÇÃO PARTICULAR (9)

EDIÇÂO MANUSCRITA

Com cada carícia, deixo na tua pele
Uma narrativa.
Não sei como teu pergaminho
Comporta tanta grafia indelével.
Bom que eu possa reler
Esse poroso registro
De doces tramas textuais
Sem severa autocrítica.

Tal escrita não é da natureza fugidia
Do prefácio matinal,
Que por mais sol que exiba,
Logo se esbate no entrecho da tarde;
Ou das voláteis assinaturas aéreas
Que as asas firmam no ar;
Nem das traduções apócrifas
Que se rascunham velozes na água.

Ah, mas mistério é saber
Como o invisível se corporifica!
E quão estranho é que saias por aí,
Exibindo alguns episódios
Dessas minhas rapsódias epidérmicas ,
E ninguém os consiga ler.


Stanley Spencer, Double Nude Portrait: The Artist and his Wife, óleo, 1937.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

COLEÇÃO PARTICULAR (8)

FORÇA DESNECESSÁRIA

Terei voltado à superfície
Se não vejo mais o limite
Que o céu impõe ao mar?

Por trás das retinas adernadas
Tudo é imensa neblina
Sobre o plano oceânico.

Só ouço a percussão remota
Das ondas que se chocam
Contra as muradas do crânio.

No nauseante balançar
De águas tão soturnas
Já deve estar dissolvida
Qualquer suposta coerência
Dos meus atos.

Ah, a amnésia se aprofunda,
Uma âncora descomedida,
Para puxar ao sem-fundo
A frágil e banal corrente
Dos fatos da minha vida...

Julio González,  Cabeça Reclinada, ferro, 1930

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

COLEÇÃO PARTICULAR (7)

SOMBR-AÇÂO

Sombra que,
Cronométrica,
Desce pelas paredes,
Baixa-mar
Seca e sem sal.

Sombra que,
Roedora,
Devora ilesa,
Na ratoeira,
A isca dum filete de sol.

Sombra que,
Estrategista atrevida,
Invade o túnel
Pela saída.


Mark Rotko, Number 61, óleo s/ tela, 1953

domingo, 22 de janeiro de 2012

COLEÇÃO PARTICULAR (6)

ILH-EU?

Precisa ser
Numa ilha,
Desiderata.
Ali o poema não é enfurnado
(Núncio precário)
Numa garrafa
A lançar-se ao mar.
Ao contrário:
É trilha para dentro da mata
Insular.


Howard Hodgkin, After Matisse, óleo s/ madeira, 1995

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

COLEÇÃO PARTICULAR (5)

CONSENTIMENTO

Nunca ou agora,
Nada acontece
Na ágora.

Os olhos calam,
As bocas olham.


Jean Dubuffet, Tumultuous Landscape, tinta s/ papel, 1958

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

COLEÇÃO PARTICULAR (4)

AO REDOR DO SOL

Terminado o outono,
Ainda gravavam a terra
Os meus passos átonos.

Ao findar o inverno,
Ainda gerava nascentes
Meu degelo interno.

Encerrada a primavera,
Ainda não estava isento,
Sob a hera, de florescer.

Mas ao fim do verão, terá
Minha pele uma dívida
Lívida, insolvível com o sol
Ou terei saldo para solver?



Hellen Frankenthaler, Persian Garden, litografia, 1966.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

COLEÇÃO PARTICULAR (3)

O AGREGADO

A morte não é um invasor.
Não é senão um hóspede muito educado,
Fleumático e erudito professor de latim
Que ocupa o cômodo mais modesto da casa.
Senta-se conosco à mesa,
E com olhos fixos no prato
Sorve a sopa rala, nossa única refeição,
Limpa com cuidado os lábios no guardanapo,
E da mesa retorna ao quarto
Com um sorriso frugal e de fingida paciência,
De quem se basta apenas com o antepasto.


Georges Rouault, Um Juiz, 1935

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

COLEÇÃO PARTICULAR (2)

TROMBOS

Confesso por nós:
Eu tinha a ousadia
De sonhar.
Os sonhos se investiam
Pelas artérias dilatadas,
E mantinham irrigadas
As vísceras da realidade.

Era ainda agora... Mas
Que resíduos adiposos
Me esclerosaram,
Em estanque índivíduo,
Tão precocemente?

Algo estacionou os sonhos
Em coágulos de memória,
Como uma corda com nós
Muito espaçados.


Antoni Tàpies, Alaya, Técnica mista, 1998

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

COLEÇÃO PARTICULAR (1)

CURATIVO

De que vale
Na fala bruta
E concisa,
A secreta volúpia
Da palavra ferida
Se no olvido alheio
Ela cicatriza?


Frantisek Kupka, Musique,  óleo s/ tela, 1936.