Imagem do cabeçalho: "O Grande Canal de Veneza" (detalhe) de Turner
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quarta-feira, 11 de maio de 2011

INTERIORES E VIDA SILENCIOSA (XXVIII)

30 – natureza-morta com mitologia

O isqueiro antigo me lembra Prometeu;
as cinzas do cinzeiro, Fênix;
o cigarro me lembra a forja de Hefestos;
o telefone e a caderneta de endereços
me lembram Hermes;
as moedas espalhadas me lembram Zeus;
me recorda Athena a caneta inerme;
o porta-retratos me lembra Afrodite;
a folha em branco me lembra Diana,
a virgem caçadora,
e o jornal de ontem, a caixa de Pandora.

Kurt Schwitters, The Hitler Gang, colagem

terça-feira, 10 de maio de 2011

INTERIORES E VIDA SILENCIOSA (XXVII)

29 – interior com primavera

Vivamos de mãos dadas
neste interior.
Deixemos que circulem
os nossos sonhos,
esses eqüinos amestrados
pelo carrossel dos relógios.

Desabitemos o lá-fora,
se aqui dentro resumimos
as quatro estações do ano
a partir da primavera:
os teus cílios vibrando,
a tua boca adorada
já ressuma alento de flor,
evocando o ardor
no labelo da tua orquídea
ainda ocultada.

Esqueçamos o inverno exterior.

Matisse, Interior em Nice, óleo, 1922

segunda-feira, 9 de maio de 2011

INTERIORES E VIDA SILENCIOSA (XXVI)

28 – natureza-morta com palavras

Essa pêra é apenas uma palavra
que espera
e vegeta
no dia banal.

Essa faca é também uma palavra,
mas se destempera
com sorriso insidioso
de animal.

Dali, Natureza-morta viva, óleo, 1956

domingo, 8 de maio de 2011

INTERIORES E VIDA SILENCIOSA (XXV)

27 – interior ocupado

Há pouco eu era criança,
e eram enormes as salas,
naves;
estradas, os corredores;
eram coliseus os interiores
onde reinavam
os meus sonhos
em miniaturas.

De súbito me expandi,
cresceram-me o crânio,
o tórax, os braços,
ou contraiu-se o espaço,
ocupou-se o vão e a folga:
em claustrofóbica ruína,
tenho os sonhos oprimidos
pela arquitetura.

Magritte, L' Anniversaire, 1959

sexta-feira, 6 de maio de 2011

INTERIORES E VIDA SILENCIOSA (XXIV)

26 – natureza-morta com vida interior

Nasce o olho da morte
na rubra maçã:
um ser vivo trabalha dentro dela.

Caravaggio, Natureza-morta com Cesto de Frutas, óleo, 1601

quinta-feira, 5 de maio de 2011

INTERIORES E VIDA SILENCIOSA (XXIII)

25 – interior com estradas e saídas

Nas quatro paredes,
centenas de janelas
flutuantes,
retráteis;

e duas portas:
uma, fechada a chave,
dá para a rua,
a outra, entreaberta,
para o fim do mundo.

Kurt Schwitters, Oorlog, colagem, 1930

quarta-feira, 4 de maio de 2011

INTERIORES E VIDA SILENCIOSA (XXII)

24 – natureza-morta com pressentimento

As solas do par de sapatos
ainda sem uso,
já trazem ao tampo da mesa
alguma sujeira
das ínvias calçadas do mundo.


Miró, Natureza-morta com sapato velho, óleo, 1937

terça-feira, 3 de maio de 2011

INTERIORES E VIDA SILENCIOSA (XXI)

23 – interior com marinha

Sob um peso de papel
a folha branca
não se conforma:
o vento vindo da janela
insufla nela ímpetos
de velame de barco,
e num poema não-escrito,
por espasmos, ela voga.

Edward Hopper, Rooms by the Sea, óleo

segunda-feira, 2 de maio de 2011

INTERIORES E VIDA SILENCIOSA (XX)

22 – ferramentas

O sono momentâneo
das coisas com função:

a chave de fenda
para torturar a cabeça
frouxa dos parafusos
existenciais;
o serrote para seccionar
as veias secas
da madeira dogmática;
a montolia para irrigar
as articulações fatigadas
dos argumentos;
o formão para formalizar
o contrato das aspirações
contrafeitas;
o esquadro para enquadrar
a circunferência viciosa
da dúvida;
o nível para corrigir
o ângulo desafiador
da vertigem;
o prumo para verticalizar
as verdades relativas,
e o martelo ao pé de tudo
como um velho
cão de guarda
míope e sem olfato.

Todos dormem
descuidados.

Marcantonio, Melancolia 27, téc. mista

sábado, 30 de abril de 2011

INTERIORES E VIDA SILENCIOSA (XIX)

21 - interior com quinquilharia

Tinha um amor profundo
pelo desuso,
cada objeto aposentado
era como um convalescente
de breve doença:

- Vá que ressurja de repente
a saúde da utilidade!

Era tão sério isso que parecia
a incumbência de um Noé:
recolher um exemplar
de cada destroço da sua vida.

E veio, enfim, o dilúvio de si mesmo.
Restou o quarto das tranqueiras,
arca repleta de bugigangas
sobre o monte de sonhos de araque.


Kurt Scwitters, Merz-Column, 1923

sexta-feira, 29 de abril de 2011

INTERIORES E VIDA SILENCIOSA (XVIII)

20 – velhice com vaso de flores

As   flores  de  tecido    plastificado
que   ela    insiste   em    conservar
–  como  fênix   que   ressurgissem
de  bimestrais  lavagens  a   seco –
têm  permanência   tão  mais  triste
do   que   o   natural    fenecimento
das           flores           verdadeiras:
Estas  não têm tempo de  acumular
Sobre a beleza urgente das pétalas
A baça  pátina de gordura e poeira.


Suzanne Valadon, Vaso com Flores, 1920

quinta-feira, 28 de abril de 2011

INTERIORES E VIDA SILENCIOSA (XVII)

19 – interior de redomas

Não será o teu aquário
feito rio embrionário
ou berço de algum mar:
é bolha d’água exilada
e finita,
em cômodo da tua casa
estrita,
[a tua própria ampola
inscrita
na grande redoma de ar
que no vácuo, sem par,
orbita].

Matisse, Mulher e Peixes, ost, 1921

quarta-feira, 27 de abril de 2011

INTERIORES E VIDA SILENCIOSA (XVI)

18 – taxidermia

No aquário
de transparência
abissal,
um oceano absoluto
para os olhos escuros
do peixe ornamental.

Matisse, Peixes Vermelhos, óleo, 1912

terça-feira, 26 de abril de 2011

INTERIORES E VIDA SILENCIOSA (XV)

17 – interior com insônia

Quatro paredes saturadas
pelo cheiro de cigarro.

O ar viscoso.

A TV cintilando como uma estrela absurda. Anã?

E a janela aberta para a noite estacionária,
retangular sorriso de uma boca sem dentes.


Francis Bacon, Figura em Movimento, ost

segunda-feira, 25 de abril de 2011

INTERIORES E VIDA SILENCIOSA (XIV)

16 – arte

Ninguém nota,
ao fundo da natureza-morta,
a nesga de janela
que descortina o prado
de onde foram colhidos
as flores e os frutos vivos,
ora congelados
no perímetro sem ar
do quadro.

Matisse, Mesa Posta (Harmonia em Vermelho), ost, 1908

sábado, 23 de abril de 2011

INTERIORES E VIDA SILENCIOSA (XIII)

15 – apócrifo

Na página outonal do livro,
dita folha de rosto,
hiberna entre caracteres
o poema de inverno
que jamais será composto.

Edwart Collier, óleo sobre tela, 1697 

sexta-feira, 22 de abril de 2011

INTERIORES E VIDA SILENCIOSA (XII)

13 – fruteira com anoitecer

No dorso fosco
do mamão,
sol deposto,
casca crepuscular.

Na pele rubra
da maçã polida
uma aura
alva de luar


14 – interior com luminária

A mariposa assombrada
a   tremular   com alarde
ao  redor   da   lâmpada,
recorda-me uma folha seca
querendo retornar à árvore.


Cézanne, Estudo de uma Maçã, aquarela

quinta-feira, 21 de abril de 2011

INTERIORES E VIDA SILENCIOSA (XI)


12 – interior com desmedida

Nestas paredes
cabe a saga de Dom Quixote;
cabem nestas paredes
um capitão Acab e seu cachalote.
Nestas paredes cabe
o código de Hamurabi,
A Batalha de Anghiari
e o som de todos os stradivari.

Cabem todas as cantatas de Bach
e A Liberdade Guiando o Povo, de Delacroix.
Nestas paredes
cabem a Fontana di Trevi
e as 36 vistas do monte Fuji, de Hokusai;
cabe o próprio Fuji e sua neve;
cabem o Empire State Building,
o Tom Jones de Henry Fielding
e o Karamazovi de Dostoieviski.

Cabe a Acrópole de Atenas e a Santa Sofia,
e com folga caberia o deserto de Gobi
e todos os campos de trigo de Van Gogh.
Cabem, enfim, todos os retalhos do Google Earth,
e os grafites dos muros de todas as cidades.

Nestas paredes, coisa pouca,
só não cabe a felicidade.

Watteau, Sob a Insígnia de Gersaint, Ost, 1720















Lluis Barba, La Muestra de Gersaint, Watteau, 2009
Imagem retirada de: http://www.lluisbarba.blogspot.com/

quarta-feira, 20 de abril de 2011

INTERIORES E VIDA SILENCIOSA (X)

11 – miscelânea

O pássaro arborícola,
de sua gaiola
olha para as flores gêmeas
que, vulgares,
olham para a jarra de louça
que, nobre,
olha para a pêra doce
que, aflita,
olha para a tesoura aberta
que, faminta,
olha para o livro solene
que, autista,
olha para o zênite.

Joan Miró, Nord-Sud, óleo s/ tela, 1917

terça-feira, 19 de abril de 2011

INTERIORES E VIDA SILENCIOSA (IX)

10 – interior do interior

Visto de dentro
o dentro ainda
é outro exterior
tal qual a boca
lida pela língua
que não articula
enquanto tateia
a tradução
dos dentes.

Antevisto de fora
o dentro é sempre
suposto cheio
de exterioridades,
boca com recheio
de palavras
forasteiras
em estadia
entre os dentes.
Seria abrigo, fórum
do que estava fora,
tal a alma no corpo
e no relógio a hora.

Vermeer de Delft, O Ateliê, 1667