Imagem do cabeçalho: "O Grande Canal de Veneza" (detalhe) de Turner

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

EM CÍRCULOS

O tempo
é porta giratória:
distraído saio
sem sequer entrar.

domingo, 7 de novembro de 2010

FLORAL

(Para Juliana, minha filha)


Mensageira de todos os jardins futuros,
Flor andante,
O seus olhos perfumam
As minhas alamedas para o mundo.

OLHAR

Se houvesse apenas
uma verdade total
e evidente lá fora,
tudo seria ciência natural,
aqui, agora.

Mas, a poesia existe
porque há um lado de dentro
que quer ser visto
como lado de fora.




Man Ray, Undestructable Object

sábado, 6 de novembro de 2010

QUADRA

Basta uma nesga de terra
Pra luta recomeçar,
Entre o medo de partir
E o pavor de se arraigar.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

FORA DE ALCANCE

Eu só quero falar
do que não alcanço:
o ar perdido dos pulmões;
aquela auréola de luz
que envolve o inseto
zunindo ao sol;
segundo por segundo
tudo que sucede
depois que as mãos
largam o trapézio-pêndulo,
o trapézio sob a lona do circo,
não a forma geométrica
- deserto que nada diz
de mim para mim mesmo.

















 Marc Chagall, O Circo

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

LONGE, PERTO

Serão sete léguas
percorridas.
Os meus pés se vão.

Fico aqui a ver navios
num portfólio da vida.






















Renoir, Monet Lendo Jornal, óleo s/ tela.

DA BUSCA

Buscando palavras
como quem aponta
estrelas cadentes...
Até o momento,
vi passar
uma apenas:      “tarde”.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

INVENTADO

A árvore
ora se inclina
para o chão.
Não há vento.
Eu o invento
na paisagem,
toda ela
verde alucinação.



















Piet Mondrian, A Árvore em Flor, óleo sobre tela

HUMANAS CIÊNCIAS

Não quero ter olhos de cientista
Para olharos meus semelhantes.

INEVITÁVEL

A palavra termina revestindo a vida
que eu pretendera desnudar.





















Lucien Freud, Garota com Olhos Fechados, Óleo s/ tela, 1987

URGÊNCIAS

Penteando a paisagem,
cai urgente
a chuva fina.

Um cheiro antigo
acaricia as narinas,

mas logo o corrompe
o odor de outras urgências:
                gasolina.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

UNO

Eu poderia ser chinês. Russo
eu poderia ser. Eu poderia ser
francês, esquimó, grego, beduíno,
judeu, tailandês, palestino,
aborígine, nórdico, africano
ou todo et cetera humano.
Qualquer rosto desse multiplicado
ser de esperança, desesperado,
eu poderia ser.




















Marcantonio, Monotipia

Outras imagens minhas AQUI

PALAVRINHAS (6)

domingo, 31 de outubro de 2010

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

NARCISO

Fora das fronteiras
Imóveis
Do teu ser apaixonado
Tudo são coisas bárbaras
E estrangeiras.

DÚVIDA

Pensar é dispensar os extremos?

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

ANISTIA

Ela leva as flores,
em seu vaso,
para passear
no jardim que as urdiu,
antes que sequem,
no exílio,
sem rever a terra natal.





















Pierre Bonnard, A Mesa e o Jardim, óleo s/ tela.

OPACIDADE

Quando digo:
- Eu não sei!
Foge dos meus lábios um silvo aspérrimo que se transforma num uivo alongado,
fugindo pelas frestas estreitíssimas da janela opaca que jamais pôde ser aberta,
que jamais será aberta!
Por que? Eu não sei!
Eu não sei.
Eu não sei.
Eu não sei.





















Mondrian, Composição com Vermelho

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

AO MESMO TEMPO

Já agora me dedico
A manter o desdém,
Mas, como se eu fora
Simultaneamente,
As uvas, a raposa,
E ainda o La Fontaine.

Ilustração de Chagall para a fábula de La Fontaine

HAICAI

Sorrir com a aurora,
os dentes ao sol ardente,
tendo a língua clara.




terça-feira, 26 de outubro de 2010

LER OS OLHOS DO LEITOR

Deixe aqui suas impressões oftálmicas.

REPTO

Tenho dúvidas
Se aqui, neste vazio
Comovido,
Já há um poema.

A simples menção
Da palavra ‘poema’
Já faz algo se agitar
Na cidadela:
São as outras palavras
Alvoroçadas;
Correm e se abrigam
Como se temessem
O dilúvio.
Dividem-se em grupos;
Formam assembléias;
Votam pela greve.
Algumas ficaram pelo chão
Se fingindo de mortas.
Mas ouço sua respiração
De covardes.

-Apareçam palavras poéticas!
Apareçam se têm entranhas,
Se tiverem coragem!
Apareçam! Covardes!

PALAVRINHAS (5)

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

INDEPENDENTE

Obstinado,
o poema incubado
aflora,
na exigüidade
do teclado.
Assim como a vida
lá fora,
não perde oportunidade
de traduzir-se em flores,
mesmo
na saturação de cores
da pós-modernidade.



Klimt, Jardim com Girassóis, óleo s/ tela, 1906.

REBELDIA

Palavra que desatina:
dança             dança
          dança                      dança
                      sem música:
                                          só mímica

domingo, 24 de outubro de 2010

CONVERSÃO

Pelas janelas vorazes
entra a essência
de tanto sol!
tanta luz!
tanta cor!
Inunda o interior
e escapa pela porta
como interjeições!




















Franz Marc  -  Pássaros (1914)

NO MEIO DA RETINA

sábado, 23 de outubro de 2010

MENSAGEM

E se já fora dito
o que acabei de dizer?
É o có-digo!