Imagem do cabeçalho: "O Grande Canal de Veneza" (detalhe) de Turner

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

HORAS

APONTAMENTO NA BORDA DO DIA (22)

Quanto mais ando pela cidade
mais a divido em partes,
e menos a compreendo.

Aquela que inteira em minha cabeça cabe,
é cidadela;
é fração,
bairro,
rua;
é um número sobre uma porta.

domingo, 12 de dezembro de 2010

APONTAMENTO NA BORDA DO DIA (21)

Hoje acordei segmentado
pela saudade,
enumerando partes do que já fui.

Nem todos os domingos
tinham a mesma essência;
nem todos eram ilhas desertas.

Parecem menos nítidos
conforme recuo
às primeiras páginas do livro
que não era o mesmo que leio agora.

Domingos sem fronteiras,
reunidos num conjunto
de todos os dias úteis
para viver de brincadeiras.

CIDADE GRANDE

Onde na fumaça
me afogo.

Foto retirada daqui

sábado, 11 de dezembro de 2010

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

HAICAI

CONVERSÃO


Em frente, um haicai:
Todo o verde antes percebido
Preso num bonsai


Imagem retirada DAQUI
.

APONTAMENTO NA BORDA DO DIA (19)

Manhã, manhã, manhã!
Anjo dourado que anuncia
aos ouvidos do tempo virgem
a vinda dos gametas
de uma só fecundação,
para iminente gestação,
e imanente parto:
porque será sempre hoje
que pode não vir a-manhã.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

FERMENTO

Só o pão
não basta:
trigo, água
e sal.

Há outro sabor
fermentando
na massa
da palavra,
pão que passa
de mão em mão:

companhia,
pagã
comunhão,

de par com o
sangue,
porém, sem
transubstanciação.

Pieter Brueghel, Banquete Nupcial, óleo s/ madeira (1569)

APONTAMENTO NA BORDA DO DIA (18)

Hoje, os meus ventos
literais
não inclinam a palmeira
para a metáfora.

Vejo um dia imóvel.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

SALINO

Como uma onda que retorna,
deixo nas tuas costas
um rastro de suor.

Quando secar
terás no teu
o sal do meu corpo.

Egon Schiele, Nu, aquarela e grafite s/ papel

SEM RETORNO

Há uma palavra
que não tem para onde retornar,
porque não foi pródiga,
porque não saiu de casa.

Dürer, O Filho Pródigo, gravura em cobre

APONTAMENTO NA BORDA DO DIA (17)

Ao abrir a janela,
é sempre como ilusão
que manipulo a palavra 'mundo'.

Oh! A palavra está sempre
na escala humana: 1/1.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

OFICIOSO

É tarde para tecer
um discurso oficial:
eu seria sempre
um pária-conscrito,
aquele, o verdadeiro,
o que teme as cartas celestes,
a grandeza arbitrária
de toda hierarquia.

Vermeer de Delft, O Astrônomo

APONTAMENTO NA BORDA DO DIA (16)

Olha, a manhã me escapou.
Já é tarde.

Ao entrar em uma rua
curta e sem importância
(embora tenha nome histórico),
vejo uma bando de pombos negros
vasculhando a calçada.
Não quero espantá-los,
mas à minha discreta passagem,
debandam em arritmia:
aquele rumor, desnorteio
que me multiplica o olhar
para acompanhar a todos
simultaneamente.

Uma analogia precisa
para a forma como percebo o mundo:
por debandadas da realidade.

Ao dobrar a esquina,
olho por sobre o ombro:
reagrupados,
tornam a policiar a calçada.

A plana calçada da tarde.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

INDÍCIOS

No denso céu dos teus olhos
ainda não pude distinguir
se as nuvens estão passando
ou se conseguiste ancorá-las.

Mas nas pálpebras inferiores
há duas pistas úmidas
impróprias para decolagem.

APONTAMENTO NA BORDA DO DIA (15)

Acordei sem fôlego.

Três ou quatro palavras
me roubavam o ar
como se tivessem tórax.

As demais boiavam
como lascas de cortiça
na lagoa escura
chamada melancolia.

Ao menos não cheirarão
             mal.

domingo, 5 de dezembro de 2010

ILUSÃO

Dizer, dizer, dizer,
e novamente dizer,
até que a oração
perca os sentidos,
tal como o mundo
visível
que se diz maya.

Escher, Ordem e Caos

APONTAMENTO NA BORDA DO DIA (14)

É do íntimo que extraio as resinas
com que elaboro o verniz do dia.

Hoje, brilhante, mas envelhecido:
oxidado,
                trincado,
                                craquelado,

como um óleo sobre tela
do final do século XIX.

sábado, 4 de dezembro de 2010

SÍMBOLO

Não tem desígnio nenhum
esse pássaro sem cor precisa
(corpo de penumbra)
que atravessa a noite.

E, no entanto, ele me causa
um estremecimento,
como se eu estivesse diante
da pirâmide de Quéops,
de um dólmen,
ou de algo mais remoto.

Pintura rupestre, gruta de Lascaux , França

CORRESPONDÊNCIA

Ardente
nos lábios,
um timbre:
teu beijo.

APONTAMENTO NA BORDA DO DIA (13)

Cada dia tem seu Atlas
que o sustenta nas costas
curvadas às obrigações.

Cansa demais o realismo.

Hoje, esforço hercúleo,
darei folga a esse atlas
por solidariedade a mim,
e ampararei este sábado
nas minhas fortes ilusões.

Atlas Farnese,
Museo Archeologico Nazionale,
Nápoles

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

INCONSCIENTE COLETIVO?

Ignoro o estoque total
das minhas ocultas facetas.
O que translado para cá
nem sei se trouxe de mim:
muita vez me sinto apenas
um provinciano estafeta.

RALO OU DENSO




CONFLUÊNCIA

Um poema de Fernando Campanella com design meu:

























O fundo é reprodução da obra  "Estrada e Atalhos" de Paul Klee

Mais de Fernando Campanella em PALAVREARES

APONTAMENTO NA BORDA DO DIA (12)

Tenho os ossos doloridos.
Os músculos pesados.
O olhar diluído.
Os nervos de prontidão.

O espelho da manhã
sempre me flagra tresnoitado.
A insônia é um esgarçar
das fronteiras,
um não saber da travessia:
há muito que mal-adormeço
para despertar no mesmo dia.

E sequer me dou conta
desse tanto por fazer
que me torna inadiável.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

CHORANDO

Dos olhos ocupados
pela paisagem ressequida
surgem córregos finitos.

Picasso, Mulher Chorando, óleo s/ tela, 1937

APONTAMENTO NA BORDA DO DIA (11)

Cheiro de café.

Manhã envelhecida
que acolhe compassiva
as vozes da véspera.

Sinto certa náusea
pelas recorrências.
Certa náusea.
Nau-sea ! Nau-mar...
Ah, sim, se a nau ainda oscila
mesmo aportada.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

GRAFEMAS ORGÂNICOS

Grafias
na pele do rosto:
marcas de nascença
&
marcas do oposto.

Retrato de Samuel Beckett por Louis Le Brocquy

PALAVRINHAS (7)

APONTAMENTO NA BORDA DO DIA (10)

A manhã parece
um conjunto escultórico.
O movimento é virtual
nas linhas rígidas
da cena que não respira:

Não corre sequer uma brisa
pelo mármore.