Imagem do cabeçalho: "O Grande Canal de Veneza" (detalhe) de Turner

domingo, 16 de janeiro de 2011

EPIFANIA AMOROSA

Um raio de luz alveja
teus frágeis calcanhares
unidos
e voltados para a lua.

sábado, 15 de janeiro de 2011

APONTAMENTO NA BORDA DO DIA (52)

Eu pretendia registrar
Uma impressão seminal, inadiável;
A súmula geográfica de um mundo
Desabitado que há dentro de mim,
Uma intuição fabulosa
Finalmente capturada
Refletindo-se num espelho de mão.

Mas, um poema tomou o lugar dessa impressão.
Por mais que o releia,
Ele não me recorda o que eu pretendera dizer.

Só agora percebo que todo poema é desapontamento.

SEM TÍTULO

Eu lamento tanto e tanto,
e lamentando me prevejo
na onda da inevitável dor
do mundo que reverbera
no tremor do teu queixo.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

APONTAMENTO NA BORDA DO DIA (51)

Os meus olhos fugazes
Têm a empatia necessária
Para acompanhar de perto
A fuga de todas as coisas.

As referências
Vêm de um cenário ensolarado,
Conservado por princípios,
E visto pelas janelas estreitas
Da memória retardatária.

PERDA

Escapam suas trêmulas mãos
que se agarravam às minhas
As unhas me abrem nas palmas
rubro signo: sangradas linhas
com irremediável significado
que inflamado ficará, latejante,
mesmo quando o significante,
adiante, já houver cicatrizado.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

APONTAMENTO NA BORDA DO DIA (50)

Para ter a sensação da própria permanência
É preciso olhar o dia por um microscópio.
Você parecerá, então, um titã com amplo domínio
Sobre as horas minúsculas. Uma espécie de Gulliver.

Porém, não mire a olho nu o firmamento,
Não pense diante do mar
(ele jamais foi um acúmulo de gotas),
Não olhe nos olhos dos grandes panoramas,
O geográfico, o histórico.

Porque toda essa grandeza o recordará
Do frágil fio do seu olhar,
Do ofício sinistro das Parcas,
Da tesoura de Átropos.

E parecerá tão iminente não estar mais aqui.

Jacob Matham, As Parcas, gravura (1587)

ARMADILHA

Tento escrever um verso neológico
Onde você permaneça junto a mim
Ensimesmada.

Esteira Rolante

Por mais que eu fuja, fuja, fuja,
fujo sempre sobre a realidade.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

APONTAMENTO NA BORDA DO DIA (49)

Por que não me acostumo ao sofrimento
Se ele sempre foi de casa
Com lugar guardado à mesa,
Se ele apenas brinca de esconde-esconde,
Fingindo que vai embora?

O nosso convívio seria mais amigável
Se ao suposto retorno dele
Eu simulasse surpresa?

Há quanto tempo!
Entra! Sai já dessa soleira!
Por onde tens andado?
Andas muito ocupado?
Hum... Pareces mais gordo!
Anda, conta!
Puxa uma cadeira...

CAMINHOS

(Para Dade Amorim)

Escrever é,
com alguma sorte,
divisar surpresas
no mesmo trajeto:
da esquerda para a direita,
de cima para baixo,
direto.

Desenhar é
suspender-se ao vento,
figurar com a linha
novos trajetos
para o pensamento.

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

APONTAMENTO NA BORDA DO DIA (48)

Canto de pássaro
é corpo de pássaro
para meus ouvidos
urbanos,
ocupados.

Um corpo coletivo,
editado,
mosaico feito com
retalhos-clichês
de pássaros raros.

Imagem tocada
de ouvido,
cubismo sonoro.

BRINCO

A minha língua
deixa uma prenda
no doce lóbulo
da tua orelha,
pequena concha
à tua concha rente:
murmúrio portátil
de amor pendente.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

APONTAMENTO NA BORDA DO DIA (47)

Ela acaricia a toalha de mesa
Como os cabelos de uma criança.

Talvez pretenda ali entranhar
Uma porção de nada, de cinzas.

Talvez esteja brunindo
O ponto ocupado
Por uma ausência
Numa lasca de espelho.

Ou apenas queira sentir
A remota temperatura
De uma imagem que gotejou
Das suas pupilas dilatadas.

UMA NOTA

O metrônomo não me serve.
O meu solfejo é só a leitura
de um lá em semibreve
que desaparece na pausa
total
do abismo lateral à partitura.

domingo, 9 de janeiro de 2011

APONTAMENTO NA BORDA DO DIA (46)

Um dia tão claro-claro
Onde tudo pode olvidar-se
Mergulhado na luz.

Como escrever com luz
Sobre páginas de luz?

Como obter contraste?

Um grito tão claro-claro
Não poderia ser ouvido.

Malevich, Branco sobre Branco (1918)

HOJE

sábado, 8 de janeiro de 2011

APONTAMENTO NA BORDA DO DIA (45)

Há palavras que surgem planando
como sementes de dente-de-leão.

Pequenos pára-quedas surreais
cujo destino é fecundar o chão.
Mas, com sopros impertinentes,
brinco de mantê-las suspensas
até me cansar, perder a atenção.
Cadê?
Devia tê-las recolhido à tempo
ao contra-destino da minha mão.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

APONTAMENTO NA BORDA DO DIA (44)

Um desfolhar
das coisas
revela o óbvio
ainda não pensado:

reparei que uma árvore seca
recorda uma bacia hidrográfica.

POWER OFF

Minhas estradas são abertas
no escuro das madrugadas:
prontidão para viver uma odisséia.

Mas, não há para onde retornar.
Ficar não posso.
Acordado, conspiro,
Adormecido, não desapareço.

Lá fora estrelas-sereias
cantam em off
num longa-metragem celeste.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

APONTAMENTO NA BORDA DO DIA (43)

Um dia não vivido,
aquele evaporado,
sopro quente
que embaça
o vidro temperado
dos meus olhos.

SILÊNCIO E IMOBILIDADE

1-

Um cortejo de ruidosos viajantes
segue para o silêncio.

2-

Os fatos quase não se movem,
cavalos dormindo em pé.

Degas, Cavalo Parado, bronze - Coleção do Masp

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

APONTAMENTO NA BORDA DO DIA (42)

Parece que me propus
a suspensão da escolha.
Escolhi nada escolher,
cansado de ter olhos
pendulares,
ou desse meneio mecânico
da minha cabeça
como se assistisse
à uma interminável
partida de tênis.

Na encruzilhada
a vida me crucifica
com cravos-placebos.

Perdoa-me, tempo,
se não sei o que faço
com a tua oferta!

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

DESCONSTRUÇÃO

Menino, eu costumava
desmontar os meus brinquedos,
buscando entrever
o misterioso coração da alegria.

Adulto, ainda permaneço
infantil anatomista,
tentando entender
como se oxigenam as células
das palavras
sem corrente sanguínea.


Pieter Brueghel, Jogos Infantis, 1560

APONTAMENTO NA BORDA DO DIA (41)

Eu poderia diagnosticar
como turismo alucinatório
essas paisagens assombrosas,
que subversivas me ocorrem
entre obrigações tediosas?

MARÉ

Que jamais me afogue
os olhos
a inundação ilusória,
maré onisciente
de algum azul permanente.

Yves Klein, Globo Terrestre Azul, 1962

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

HOMENAGEM QUE ME COMOVE

A Kenia Cris me dedicou um belo poema no seu Poesia Torta.
Não poderia deixar de publicá-lo aqui com orgulho, um fruto de seu talento
enorme e um emblema da nossa amizade. Obrigado, Kenia!

Temporariamente azuis
os olhos do homem
misturam-se ao mar


em ondas
quebram
sem receio


irrompem
em poesia


lavam a areia
dos meus olhos.

APONTAMENTO NA BORDA DO DIA (40)

À guisa de epígrafe, este poema de Fred Caju:

O JABUTI

Lento, passo a passo, passivo.
O jabuti tem sua vida monótona e previsível:
nascer e morrer.
Durante a vida não se preocupa em mudar o seu ritmo,
já está conformado com o destino
que seus antepassados escolheram.
Poderia mudar se quisesse,
mas, permanece totalmente estático.

Nota ao leitor:
Quaisquer semelhanças, neste poema,
entre o jabuti e o homem é mera coincidência.


Hoje acompanhei alguém a um posto de saúde
Da rede pública da cidade do Rio de Janeiro.
Eu era um guia para um inferno de indiferença.
Todo um pensamento revoltoso meu
Tornou-se um bestiário pasmado num beco sem saída:
Vi jabutis “trabalhando”. Vi jabutis na fila,
Aguardando para serem encaminhados
Para outras filas e destas para uma fila de meses
À espera de um exame.

Uma funcionária-jabuti surge não sei de onde
E diz à fila:
- Desculpem a demora, mas eu estava resolvendo
Um problema de um “colega” de vocês.

Ó grande deus dos jabutis, então é isso?
O povo pobre é uma subespécie de jabutis,
Colegas de anonimato e desesperança,
Colegas de aceitação do próprio destino.
Talvez a funcionária expressasse alguma vergonha
Por fazer parte desse grande jabuti-sistema ineficaz
Mantido por uma natural jabuticidade de todos nós.
Mas em algum lugar deve haver um jabuti cínico
Mentindo aos seus não-colegas de que tudo corre bem
No interesse da subespécie. E parece que eles acreditam
Que não possa ser de outro jeito, cândidos jabutis.
Afinal o dinheiro é a única coisa que apressa um jabuti
E quem não o tem se dá menos conta da própria condição.

E eu, jabuti-poeta de merda, saí dali revoltado
Com os meus poeminhas anódinos onde tasco
Alguma flor babaca, algum canto de pássaro,
Alguma nesga de mar abstrato, como se a poesia
Não pudesse ser senão escapismo diante dos extremos
Da condição humana. Tento me desculpar a mim mesmo.
Tornar a vida suportável pela ilusão
Talvez seja a mais natural forma de revolta,
Incluindo a desilusão e o cansaço do próprio revoltado.

Ah, os otimistas se esforçam para pensar por fatias,
Para rolar acima a pedra da justificativa da existência.
Pasmo, no meu pessimismo talvez tão disparatado
Quanto qualquer otimismo, arco apenas com o absurdo
De apenas existir ou não,
No desconforto de sonhar com algum jardim
Em que a minha condição de jabuti seja menos contrastada.

domingo, 2 de janeiro de 2011

APONTAMENTO NA BORDA DO DIA (39)

Não tenho roupa de domingo,
nenhuma vestimenta prescrita para qualquer dia.
Devo parecer sempre inadequado para o cerimonial.
Tenho algo de vagabundo aos olhos alheios.
Ora, meus caros, é só um exercício relativo de liberdade
essa escolha de uma roupa íntima
que me dê a sensação de nudez
sob essas rígidas peças de vestuário
que são os próprios dias,
fatiotas inevitáveis separadas em seus cabides.

Mesmo assim tenho hoje certo desconforto
como se não tivesse trocado a roupa de baixo:
talvez porque dois dias seguidos
tenham se vestido de domingo.

Eu disse que era um exercício relativo de liberdade.

Seurat, Tarde de Domingo na Ilha La Grande Jatte. OST, 1884

NADO LIVRE

Viver é restituir-se ao incerto,
Escapar das ilhas da verdade
Que te querem um náufrago.

Devolvi-me às dúvidas tantas,
Tantas, em número suficiente
Para sustentar meu livre viver.
Agora nado por nada.

sábado, 1 de janeiro de 2011

APONTAMENTO NA BORDA DO DIA (38)

Vi alguma poesia
viva
no rosto
dos transeuntes
que vinham
ao meu encontro;

um transe súbito,
sorriso alegórico:
deposição
de armas.