Imagem do cabeçalho: "O Grande Canal de Veneza" (detalhe) de Turner

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

TEMPO DE EXPOSIÇÃO (59)

INFUSÃO

Retenho
A última palavra
A macerar na saliva:
Para que se torne
Tenra e doce,
E não te agrida.

Diane Arbus, A Child Crying, 1967.

sábado, 19 de novembro de 2011

TEMPO DE EXPOSIÇÃO (58)

TRANSMISSÂO

Prisioneiro Sísifo,
Parece que houve
Erro de identificação:
O teu nome
É que é Legião.

Sebastião Salgado, Serra Pelada, 1986.

























Mais de S. Salgado AQUI

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

TEMPO DE EXPOSIÇÃO (57)

TITÂNICA

É certo que naufragará
A minha cabeça,
Mas já tenho um plano
Louco de evacuação:
Primeiro, salvo nos botes,
Velhos instintos de vida,
E a improvável tripulante,
Certa inocência infantil
Sem olhar de través.
O mais siga por ordem
Casual.
Até restarem no convés
A suposta comandante
Razão
E seu imediato ceticismo:
Se não se salvam
Nadando para o nada,
Que afundem coerentes
Com a embarcação.


Andreas Feininger, S. S. United States N. Y. Harbor, 1952.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

TEMPO DE EXPOSIÇÃO (56)

INÉDITO

Eu te vi calada na fila do cinema.
Não tinhas a alegria dos demais.
Pareceu-me que cansada buscavas
Lapsos de luz numa sala escurecida
Em que não se estivesse reprisando
A projeção rápida da tua vida vazia
A vinte e quatro quadros por dia.


Garry Winogrand, Sem título, 1960.

sábado, 12 de novembro de 2011

TEMPO DE EXPOSIÇÃO (55)

GASTAS FIGURAS

A busca de uma imagem original
Para a fragilidade da existência
É vã, improdutiva.

Já foi usada a trêmula chama da vela,
O voo fugaz da libélula,
A rosa virginal e bela
Que amanhã estará ressequida,

Etc., etc...

Parece que o desgaste das metáforas
É a melhor metáfora para a vida.

Cindy Sherman, Sem Título, 1985.

























Mais de Cindy Sherman Aqui e Aqui

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

TEMPO DE EXPOSIÇÃO (54)

OCUPAÇÂO

Quando há um centro,
Ou foco,
Ou poço,
Ou fosso,
Muito fica nos cantos
Recuado.

Não no meu coração
Elíptico,
Descentrado,
De encantos
Apinhado.


José Boldt (aqui), Passeio, Santa Cruz, 2000.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

TEMPO DE EXPOSIÇÃO (53)

ANTIGA MECÂNICA

Tudo se torna maquinário.
Esse bulício de pássaros,
Outrora extraordinário,
Agora é ruído de mecanismo
Com funcionamento preciso:

Caixinha de música
Aberta toda manhã.

Margareth Bourke-White (1904-1971), Campbell Soup: Peeling Onions, 1935.



















Mais de Bourke-White AQUI

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

TEMPO DE EXPOSIÇÃO (52)

ALAVANCA

Quero um tanto de empatia
Para com as minhas palavras
Sempre ávidas de folguedos
Na prancha
Entre a infância e a velhice:
Gangorra inacabada
Apoiada sobre o medo.


Diane Arbus, Criança com uma Granada
de Brinquedo no Central Parque, 1962.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

TEMPO DE EXPOSIÇÃO (51)

ABSTRAÇÃO AÉREA

Não é exatamente a capacidade de voar
Que amas nos pássaros, imagino.
Porque há vôos ferozes que temes;
Por exemplo, dos insetos, dos morcegos,
Dos agressivos sentimentos.

Um denominador comum de direção
Abstraído a todos os seres voadores
É o que, de fato, amas: o distanciamento.


Tina Modoti, Fios Telefônicos, 1925

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

TEMPO DE EXPOSIÇÃO (50)

COLETA

Que patético pareço,
Pé ante pé
Com esta rede na mão,
Procurando entre os instantes voadores
Os mais raros.

Ainda há lepidópteros sem catalogação?


Robert Doisneau, Autorretrato,

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

TEMPO DE EXPOSIÇÃO (49)

SAPIENS SAPIENS

Sou o ser desabrigado
Que estadia sob a fuga das estrelas,
Que deve empenhar-se em contê-las
Até fixá-las numa abóboda de berço.

Sou o ser extenuado
Que repousa andando mais e mais,
Que precisa geometrizar a estrada
Até transformá-la em estalagem.


Henri Cartier-Bresson, Jean Paul Sartre, 1945

terça-feira, 1 de novembro de 2011

TEMPO DE EXPOSIÇÃO (48)

FÁRMACO

Este poema não se concluirá,
Não será soneto, mal soará,
Sem chave de ouro:
É sorvedouro,
Uma esponja rústica,
Apenas
Mata-borrão de angústia.


Alexsander Rodchenko, Vladimir Mayakovky, 1924.

domingo, 30 de outubro de 2011

TEMPO DE EXPOSIÇÃO (47)

DESCOBERTA E PERDA

Mensageira, guia,
Ou espiã disfarçada,
A poesia me envia
Sem trégua
Dúbias coordenadas,
Acaso esteja eu
Às sete léguas
De me encontrar.

Ela quer me confundir?
Ela quer me pôr na rota?

Por ora não importa.
Não ligaria de vê-la cessar
Se eu pudesse me reaver:
Só um perdido tem poesia
A perder.


Sára Saudkova, S.O.S. , 2003. (Daqui)

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

TEMPO DE EXPOSIÇÃO (46)

VEJA BEM

Eu não sou nada
Do que você imagina,
Nem abaixo
Nem acima
Ou a sua altura,
Muito pelo contrário.

Sou
Inventário
Das lacunas
Num formulário
Sombrio.

A tua imaginação
Piedosa
É que preenche
Meus sacrários
Vazios.


Andreas Feininger, Leica Photographer, 1951

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

TEMPO DE EXPOSIÇÃO (45)

TESTEMUNHA

Você conheceu o quadro de Jan van Eick
“As Bodas do Casal Arnolfini”?
(Curioso que no fim do nome Arnolfini
Haja fini, finis, fim).

É quadro tão terno. Dizem que eterno.
Na parede ao fundo há um espelho,
E Jan pôs nele o reflexo das testemunhas
Do casamento; e, como para fazer-se
Um autorretrato, lavrando um documento,
Escreveu acima do espelho:
Johannes de Eick fruit hic,
“Jan van Eick esteve aqui”.

Pois bem, nessa tua fotografia
Ficou também no espelho do teu olho
Um benévolo testemunho
Das tuas bodas com a vida.
E uma frase escrita com luz:
Um fotógrafo esteve aqui antes do fim.


Irving Penn, Picasso em La Californie, 1957

terça-feira, 25 de outubro de 2011

TEMPO DE EXPOSIÇÃO (44)

NOSTALGIA

Doem-me os dias,
Vértebras de um tempo
De espera.

José Boldt, Pescador, 1999 (Daqui)



















Blog com fotos de Boldt: ESCREVER COM LUZ

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

TEMPO DE EXPOSIÇÃO (43)

EXPEDIÇÃO

Eventualmente, para encontrar poesia,
Degreda-te a ti mesmo.
Segue para ilhas desconhecidas
No arquipélago conhecido
De teu pacífico coração.

E não leves a bússola invisível da morte
Cuja agulha tresloucada rodopia
Na palma da tua mão.


Robert Capa (1913-1954), Débarquement - Omaha Beach, 1944.

domingo, 23 de outubro de 2011

TEMPO DE EXPOSIÇÃO (42)

ESPAÇOS

Aberto o casulo,
Um pulo
Para o ar:

Com distendido espanto,
Agora vai ocupar
Um casulo mais amplo.

Seamus Ryan,  Nautilus.

sábado, 22 de outubro de 2011

TEMPO DE EXPOSIÇÃO (41)

PONTOS POR POLEGADA

Ampliada sucessivamente
A tua fotografia,
O teu ser não aumenta correspondente,
E ocorre estranha magia:
Surgem alvéolos de branca ausência,
Crescem os vazios entre as estrelas,
E em meio a tua imagem expandida
Tu desapareces.

Entre tantos pontos não mais te acho,
Mas acho que a tudo isso acontece.

Yousuf Karsh (1908-2002), Einstein, 1948.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

TEMPO DE EXPOSIÇÃO (40)

O BAILE

Não é a dança
Que me cansa,
É o ar denso da sala,
O assoalho pegajoso
E o decoro dos músicos.

Não é a dança
Que me cansa,
É a flor fria nas lapelas,
Os sapatos de aço
E o estribilho obtuso.

Não é a dança
Que me cansa,
São as regras do salão,
Os ventiladores mofinos
E os passos inconclusos.

Não é a dança
Que me cansa,
São os coreógrafos hirtos,
E a crítica estática
De seus quadris sem uso.


Garry Winogrand, 1955.

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

TEMPO DE EXPOSIÇÃO (39)

RECITAL

Não ergo os olhos ao céu
Nem cismo.
Lanço para o abismo
Das escalas menores
O meu canto rude.
Mas percebo naturalmente
A boa acústica das nuvens.


Robert Doisneau, O Violoncelista, 1957.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

TEMPO DE EXPOSIÇÃO (38)

MEIO E MENSAGEM

Meu beijo reiterado
Não evapora mudo,
Colhido na trama da tua pele:
Fecunda teu anseio de umidade?

Quisera beijar-te como linguagem
Fluida
Que decodificarias
Nas células retransmissoras
Da tua intimidade.


Edward Weston, Charis Nude, 1936

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

TEMPO DE EXPOSIÇÃO (37)

CONCERTO SINESTÉSICO

Ouvir, propriamente,
Só ouço a música ambiente,
Distante realejo...
Não confunde a minha música,
Toda feita de sons que vejo.


Robert Doisneau, L'Accordeoniste, Rue Mouffetard, Paris, 1951



























terça-feira, 11 de outubro de 2011

TEMPO DE EXPOSIÇÃO (36)

NOVENTA GRAUS

Um homem tarda na esquina.
Mas não olha para o próprio relógio.
Aquece sob o braço esquerdo
As notícias de um jornal:
Conclames de circo e martirológio.
Essa familiaridade não lhe tira do olhar
Certo pasmo de desterrado:
Parece ter perdido o lugar concreto
Entre tudo o que surge e desaparece
Naquele vértice de ângulo reto.

Talvez venha de perceber ao estacar
Que não há como fugir às esquinas ortogonais,
Desentortá-las numa reta única, clara, definida.
Feliz?
Jamais. Ele soube que não há ex-quinas na vida
Nem no sentido apontado pelo próprio nariz.

Enfim, ele põe o mundo e suas notícias
Na lixeira pública,
E atravessa a rua na coletiva diretriz.
Mas a sua sombra não o segue, fica ali,
Alongada pelo sol baixo da tarde,
Estranha e solitária bissetriz.

Henri Cartier-Bresson, Down Town, New York, 1947

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

TEMPO DE EXPOSIÇÃO (35)

INTRO ANISTIA

Ó vida, a ti retorno
De dentro de ti mesma,
Num giro
De ex-insurreto,
A minha revolução:

Não encontrei
Nenhum caminho
Para um exílio
Que não fosse
Tal ressurreição.


Garry Winogrand, Sem título, 1950

domingo, 9 de outubro de 2011

TEMPO DE EXPOSIÇÃO (34)

TESTE

Aquele poeta me disse
Que o poema é um jogo de encaixes
Como aqueles usados para aferir a capacidade cognitiva
Das crianças:
Há um espaço à espera do quadrado azul;
Há outro para o retângulo verde;
Ainda há outro para o círculo amarelo,
E outras formas com arestas mais numerosas.
E tudo deve ser completado no exato prazo
Entre o “Comece!” e o “Tempo Esgotado!”.
Não seriam poetas os retardatários
Que perdem tempo olhando pela janela,
Pois todas as peças estão sobre a mesa,
E não há uma vaga recortada para aquela nuvem
Ou para aquela árvore de galhos cômicos,
Ou para aquela senhora gorda com sua sombrinha
Num dia de sol.
Tampouco seriam poetas os apressados
Que com dedos nervosos deslizam as formas ao acaso,
Até que com raiva da própria impotência
As atiram longe, quem sabe por aquela mesma janela
Sob a qual passa a senhora gorda que, felizmente,
Usa uma sombrinha para protegê-la das palavras
Do poeta reprovado.

Fiquei decepcionado com essa poética
De rígidos parâmetros.
E nada mais tento.
Pensava que tudo fosse tão revolucionariamente
Natural
Como encaixar lágrimas na água corrente.


Robert Doisneau,  Les Écoliers de la rue Damesme, 1956

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

TEMPO DE EXPOSIÇÃO (33)

ARITIMÉTICA

São seis passos curtos para cruzar
A rua,
Não sei por que me ocorre contar.
São onze horas longas para terminar
O dia,
Não sei por que me ocorre contar.
Sete horas já transcorreram sem
Anestesia,
Não sei por que me ocorre contar.
São trinta cabeças na fila de espera
Do banco,
Não sei por que me ocorre contar.
E um saldo insignificante no meu
Bolso,
Não sei por que me ocorre contar.
E já se passaram quarenta minutos
Do almoço,
Não sei por que me ocorre contar.
São sete pássaros negros rodopiando
No céu,
Não sei por que me ocorre contar.
São três consoantes de pé na palavra
Futuro,
Não sei por que me ocorre contar.
E um ditongo crescente na alongada
Urgência,
Não sei por que me ocorre contar.
E não sei quantos anos ainda terei
De existência,
Não sei por que me ocorre contar.


Alexander Rodchenko, Stairway, 1930.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

TEMPO DE EXPOSIÇÃO (32)

CRÂNIO DE LEÃO

O teu esgar de raiva reativa
Tornou-se um sorriso simiesco
Permanente,
Nos incisivos opacos,
Entre as quatro presas
Que se cravaram no tempo.

Havia um motivo oculto para rir,
Calcificado sob o movimento
Agressivo dos músculos.

A tua força apodreceu
E agora sorris.

Por que dizem que só riem
Os homens e as hienas?


Irving Penn, Lion Skull, 1986

















Mais sobre Penn AQUI

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

TEMPO DE EXPOSIÇÃO (31)

BUQUÊ

A cortina verde
Ofega na janela:
Hálito primaveril.

Flor Garduño, Vestido e Terno,  1999.

























Web site de Flor Garduño AQUI

terça-feira, 4 de outubro de 2011

TEMPO DE EXPOSIÇÃO (30)

ALVARÁ DE SOLTURA

Qualquer dia desses
Aceitarei a liberdade
Sem ter de fazer dela
Um lema,
Não mais me ouvirão
Gritar
Pela pequena janela
Da cela
Dum péssimo poema.

Henri Cartier-Bresson, 1975