Imagem do cabeçalho: "O Grande Canal de Veneza" (detalhe) de Turner

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

TEMPO DE EXPOSIÇÃO (Final)

CÂMERA

Ciclope com lente,
Vigilante  faminto,
Devoras aqueles
Que viajam na luz
Próximos à praia
Da tua ilha cúbica.

Só se escapa da captura
Quando vaza o teu olho
A chuva de lanças
Da escuridão total.


Robert Doisneau, Hell, 1952

domingo, 8 de janeiro de 2012

TEMPO DE EXPOSIÇÃO (74)

MAR OU PARAÍSO

Eva ou Vênus,
Cona ou concha,
No teu talho encaixo
Atalho atrito,
E
Fundidos retornamos
Fundantes fodendo:
Nasce aliterado
Nosso próprio
Mito.


Edward Weston, Nude on the Sand, Oceano, 1936

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

TEMPO DE EXPOSIÇÃO (73)

EM PARTES

Talvez fosse aquela Babel
Não uma torre
Desafiando o céu,
Mas o movimento íntegro
Dum cosmo paralelo, rival
Do ciumento caos original;
E nela estariam unidos
A percepção,
A ação,
E o nome.

Quiçá desde aquele trauma
Disjuntivo -
Que não seria de nações,
Porém, de indivíduos -
O mundo não gire, mas
Se distorça, feito palavra,
Dentro de cada Homem.


Andreas Feininger, Empire State Building, 1940.

domingo, 1 de janeiro de 2012

TEMPO DE EXPOSIÇÃO (72)

OBJETIVAMENTE

Eu já te vi
Em outra pessoa,
Com outro nome,
Outro endereço,
Diversa situação.
Era outro ano,
Outro pano de fundo,
Outra estação.

Eu já fiz colagem
Da tua alma
Noutro corpo,
Eram tão parecidas,
As personalidades:
Intercambiáveis.

Já passei por ti
Quando estavas
À janela de outra vida
Contemporânea,
Mas tinhas novo rosto,
Baixa estatura,
Outra compleição
Orgânica.

Por momentos
Flagrei-te com mil pernas
Em distantes cidades
Da Ásia, América, Europa
Oceania,
E usavas máscara
De multidão:
Um gesto de punho
Cerrado bastava
Como identificação.

Sim, vejo tantas pessoas
Geminadas
Com outras pessoas:
Parece fulana,
Lembra-me sicrano;
Tanto que deduzi
Ser um cisma subjetivo
A solidão.

Pois a única pessoa
Que jamais vi
Em outra pessoa
Sou eu mesmo.
Estranho sujeito
Sem essa objetiva
Transposição.

Então, se eu dissesse
Que já me vi em ti,
Desconfiaria se não eras
Minha invenção.


Josef Koudelka, em Portugal, 1976.

sábado, 31 de dezembro de 2011

TEMPO DE EXPOSIÇÃO (71)

CHIAROSCURO

Não tenho memória de haver chorado,
Uma vez que fosse,
Com o rosto coberto de sol.

Chora-se sempre à tardinha
Ou à noite, pois
Memória de choro demanda quebranto
De penumbra:

A vela da dor apagou-se,
Foi o sopro nebuloso do tempo;
As lágrimas se tornaram opacas,
Alguns filetes de cera dura sobre a face,
Aquele antigo e frio castiçal de mármore.


Man Ray, Tears, 1926

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

TEMPO DE EXPOSIÇÃO (70)

A VIDA QUE SE POUPA

Há uma luz metafísica
Que frauda a pele da fruta
Sobre a mesa:
Já não é um cadáver
Afastado de sua árvore?

Mas esta urgência
De apetite necrófago
Vê a fruta exuberante, muito viva.

Serei um tipo de verme
Precipitado
Que a devora de imediato
Acima da terra?

Recuso o que ela oculta,
O caroço,
E o cuspo ao solo:
É osso-nave
Que nenhum verme roerá,
Pois ele escapará, aéreo.

Misericordiosa, a fome
Poupa da fruta apenas
Aquele cuspido dejeto,
Justo o que dela não é funéreo
E, projeto, viverá.


Irving Penn, Natureza-morta com Melancia, 1947.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

TEMPO DE EXPOSIÇÃO (69)

O QUE PODE FALAR MAL DE SI MESMO

Melhor que falar do canto dos pássaros
É falar do ser que o ouve e inveja.
Melhor que falar do cão que ladra
É falar do ser que se ajoelha e o afaga.
Melhor que falar da flor rasteira
É falar do ser que a eleva e a cheira.
Melhor que falar da cordilheira que se afasta
É falar do ser que a aproxima e abraça.
Melhor que falar da árvore frondosa
É falar do ser que lhe faz a sombra generosa.
Melhor que falar do fruto que a terra cobiça
É falar do ser que com a boca falante o adocica.
Melhor que falar da terra virgem e indiferente
É falar do ser que a deflora e a torna continente.
Melhor que falar da natureza selvagem
É falar do ser que nela cria uma margem.
Melhor que falar de qualquer ser sem fala
É falar do ser que lhe empresta a palavra
E sopra no barro um nome,
Esse ventríloquo que põe o mundo ao colo,
O Homem.


Yousuf Karsh, Marshal McLuhan at the Royal Ontário
Museum, 1974.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

TEMPO DE EXPOSIÇÃO (68)

A BORDO

No barco singrando
A existência, oceano total.

Pelas manhãs o mesmo brado:
- Mais mar à vista do convés-quintal!

E os remos, movidos pelo sol,
Misturam naturalmente
O ar na água oscilante,
Onde brilha um convite redundante,
A ser devidamente recusado
Pela seca indiferença
Do explorador que já navega
Com naufrágio penhorado.


José Boldt, Barco 2, Tróia, 2006. (Daqui)

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

TEMPO DE EXPOSIÇÃO (67)

DESPRENDIMENTO

O medo também cede
Ao avanço do outono,
E
Cai folha
Por folha
Da árvore
Da vida.


quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

TEMPO DE EXPOSIÇÃO (66)

ROMANCE

Eu escrevo cartas de amor à vida.
São como capítulos saltados
De um romance epistolar
Onde faço a figura de um sedutor
E assino: “Eternamente teu”.

Mas não estou seguro,
Ela jamais me respondeu.

Uso um artifício de imaginação:
Aplaco o orgulho ferido
De não ver correspondido
Este amor incondicional,
Supondo o extravio das respostas,
Enquanto lhe remeto, sentimental,
Novos testemunhos de paixão,
Ocultando nas entrelinhas
O medo do rompimento unilateral.


Tina Modoti,  Julio Antonio Mella's Typewriter, 1928

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

TEMPO DE EXPOSIÇÃO (65)

DESESPERANÇA

O olhar sozinho
Se choca
Contra a imensa
Muralha
E cai esfacelado
Em farpas
De esqueletos
De passarinhos.

Sebastião Salgado

sábado, 3 de dezembro de 2011

TEMPO DE EXPOSIÇÃO (64)

VAZADURA

À palavra olho
Cerrada
Drástica
Cílios pontos
Cirúrgicos
Vírgulas trançadas
Aponho um dreno
Parênteses aberto
Para a palavra
Interdita
Lágrimas.


Cartier-Bresson, Sleeping Woman, 1934

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

TEMPO DE EXPOSIÇÃO (63)

MARCADORES

A carne é meu relógio sem dígitos
Com um inquietante tique-taque.
Ou meu calendário sensível
E impiedoso,
Grafado por vasos, nervos e vícios,
E onde os feriados e as efemérides
Distantes
Já não se marcam em vermelho
Com o tempo sanguíneo.

Posso fugir à soma abstrata dos anos,
Mas não aos somáticos sinais de subtração.


Irving Penn, Street  Findings, 1999



quarta-feira, 30 de novembro de 2011

TEMPO DE EXPOSIÇÃO (62)

SIR VIVENTE

Astro-rei que à soleira
Da porta
Toca meus ombros,
Sagra-me cavaleiro
Iluminado,
A estender com desassombro
A minha sombra.


Dorothea Lange, Hoe Culture, 1936

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

TEMPO DE EXPOSIÇÃO (61)

DÚVIDA

Interessa ao poeta saber
Se abismados no céu
Os pássaros cantam,
Ou se seria a sua música
Instrumento de sala de espera
Que eles tocam apenas
Enquanto não tornam ao silêncio azul
Para dançar a capella.


Robert Doisneau, Jacques Prevert, Paris, 1955

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

TEMPO DE EXPOSIÇÃO (60)

ORLA

Aquietado
Pela salmodia das ondas,
Apenas olho o céu nublado,
E o mar hoje gris.

Nesta contemplação
Sem espera,
Esse ser de falésia,
Haveria algo
Do estar feliz?

A minha alma,
Um quadro neutro,
E o vento que nele escreve
Qualquer destino,
O giz.


José Boldt,  Praia, Santa Cruz, 2005 (blog de Boldt, aqui)

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

TEMPO DE EXPOSIÇÃO (59)

INFUSÃO

Retenho
A última palavra
A macerar na saliva:
Para que se torne
Tenra e doce,
E não te agrida.

Diane Arbus, A Child Crying, 1967.

sábado, 19 de novembro de 2011

TEMPO DE EXPOSIÇÃO (58)

TRANSMISSÂO

Prisioneiro Sísifo,
Parece que houve
Erro de identificação:
O teu nome
É que é Legião.

Sebastião Salgado, Serra Pelada, 1986.

























Mais de S. Salgado AQUI

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

TEMPO DE EXPOSIÇÃO (57)

TITÂNICA

É certo que naufragará
A minha cabeça,
Mas já tenho um plano
Louco de evacuação:
Primeiro, salvo nos botes,
Velhos instintos de vida,
E a improvável tripulante,
Certa inocência infantil
Sem olhar de través.
O mais siga por ordem
Casual.
Até restarem no convés
A suposta comandante
Razão
E seu imediato ceticismo:
Se não se salvam
Nadando para o nada,
Que afundem coerentes
Com a embarcação.


Andreas Feininger, S. S. United States N. Y. Harbor, 1952.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

TEMPO DE EXPOSIÇÃO (56)

INÉDITO

Eu te vi calada na fila do cinema.
Não tinhas a alegria dos demais.
Pareceu-me que cansada buscavas
Lapsos de luz numa sala escurecida
Em que não se estivesse reprisando
A projeção rápida da tua vida vazia
A vinte e quatro quadros por dia.


Garry Winogrand, Sem título, 1960.

sábado, 12 de novembro de 2011

TEMPO DE EXPOSIÇÃO (55)

GASTAS FIGURAS

A busca de uma imagem original
Para a fragilidade da existência
É vã, improdutiva.

Já foi usada a trêmula chama da vela,
O voo fugaz da libélula,
A rosa virginal e bela
Que amanhã estará ressequida,

Etc., etc...

Parece que o desgaste das metáforas
É a melhor metáfora para a vida.

Cindy Sherman, Sem Título, 1985.

























Mais de Cindy Sherman Aqui e Aqui

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

TEMPO DE EXPOSIÇÃO (54)

OCUPAÇÂO

Quando há um centro,
Ou foco,
Ou poço,
Ou fosso,
Muito fica nos cantos
Recuado.

Não no meu coração
Elíptico,
Descentrado,
De encantos
Apinhado.


José Boldt (aqui), Passeio, Santa Cruz, 2000.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

TEMPO DE EXPOSIÇÃO (53)

ANTIGA MECÂNICA

Tudo se torna maquinário.
Esse bulício de pássaros,
Outrora extraordinário,
Agora é ruído de mecanismo
Com funcionamento preciso:

Caixinha de música
Aberta toda manhã.

Margareth Bourke-White (1904-1971), Campbell Soup: Peeling Onions, 1935.



















Mais de Bourke-White AQUI

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

TEMPO DE EXPOSIÇÃO (52)

ALAVANCA

Quero um tanto de empatia
Para com as minhas palavras
Sempre ávidas de folguedos
Na prancha
Entre a infância e a velhice:
Gangorra inacabada
Apoiada sobre o medo.


Diane Arbus, Criança com uma Granada
de Brinquedo no Central Parque, 1962.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

TEMPO DE EXPOSIÇÃO (51)

ABSTRAÇÃO AÉREA

Não é exatamente a capacidade de voar
Que amas nos pássaros, imagino.
Porque há vôos ferozes que temes;
Por exemplo, dos insetos, dos morcegos,
Dos agressivos sentimentos.

Um denominador comum de direção
Abstraído a todos os seres voadores
É o que, de fato, amas: o distanciamento.


Tina Modoti, Fios Telefônicos, 1925

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

TEMPO DE EXPOSIÇÃO (50)

COLETA

Que patético pareço,
Pé ante pé
Com esta rede na mão,
Procurando entre os instantes voadores
Os mais raros.

Ainda há lepidópteros sem catalogação?


Robert Doisneau, Autorretrato,

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

TEMPO DE EXPOSIÇÃO (49)

SAPIENS SAPIENS

Sou o ser desabrigado
Que estadia sob a fuga das estrelas,
Que deve empenhar-se em contê-las
Até fixá-las numa abóboda de berço.

Sou o ser extenuado
Que repousa andando mais e mais,
Que precisa geometrizar a estrada
Até transformá-la em estalagem.


Henri Cartier-Bresson, Jean Paul Sartre, 1945

terça-feira, 1 de novembro de 2011

TEMPO DE EXPOSIÇÃO (48)

FÁRMACO

Este poema não se concluirá,
Não será soneto, mal soará,
Sem chave de ouro:
É sorvedouro,
Uma esponja rústica,
Apenas
Mata-borrão de angústia.


Alexsander Rodchenko, Vladimir Mayakovky, 1924.

domingo, 30 de outubro de 2011

TEMPO DE EXPOSIÇÃO (47)

DESCOBERTA E PERDA

Mensageira, guia,
Ou espiã disfarçada,
A poesia me envia
Sem trégua
Dúbias coordenadas,
Acaso esteja eu
Às sete léguas
De me encontrar.

Ela quer me confundir?
Ela quer me pôr na rota?

Por ora não importa.
Não ligaria de vê-la cessar
Se eu pudesse me reaver:
Só um perdido tem poesia
A perder.


Sára Saudkova, S.O.S. , 2003. (Daqui)

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

TEMPO DE EXPOSIÇÃO (46)

VEJA BEM

Eu não sou nada
Do que você imagina,
Nem abaixo
Nem acima
Ou a sua altura,
Muito pelo contrário.

Sou
Inventário
Das lacunas
Num formulário
Sombrio.

A tua imaginação
Piedosa
É que preenche
Meus sacrários
Vazios.


Andreas Feininger, Leica Photographer, 1951