Imagem do cabeçalho: "O Grande Canal de Veneza" (detalhe) de Turner

quarta-feira, 25 de abril de 2012

COLEÇÃO PARTICULAR (30)


NÃO-COR

Branco das auroras simbólicas,
Dos globos oculares,
Dos esmaltados sorrisos polares.

Branco da falsa paz,
Do sal anfíbio,
Do linho irreal
Que traja a angelitude;
Branco, prefácio da criação,
Cal gélida na solidão
Das extremas latitudes.

Branco do passado sem palavras.
Branco das larvas do silêncio.
Branco do nada.


Alberto Burri, Cretto G 1, téc. mita, 1973.

sábado, 21 de abril de 2012

COLEÇÃO PARTICULAR (29)


O AMARELO

O amarelo se fecha,
Excludente.

Ferida incurável
Sobre o verde.
Lanterna circunscrita
Contra o azul.
Veia que lateja
Mas se retrai
No meio do vermelho
Vasoconstritor.

Oráculo indecifrável,
Queima,
Autônoma cor.


Paul Klee, Fire at Full Moon, aquarela, 1933.

sábado, 14 de abril de 2012

COLEÇÃO PARTICULAR (28)

A PERDA DO MOLDE

O corpo não tem repouso
Enquanto é barro ao ponto de modelar.
Nele trabalham dois escultores
Contrapostos em seus postos:
O acadêmico tempo
E a emoção contemporânea.
O primeiro trabalha com os dedos
Automatizados
Para representar a flacidez muscular
E a textura cutânea;
A segunda transtorna e sova a massa
Com os punhos cerrados,
Ou alisa a superfície brevemente
Com um indefinido estado de graça.

A figura jamais chega ao pretendido
Estágio de se copiar na cera frágil
Para que esta, diferente da vida,
Perca-se derretida pelo bronze quente
Que esfriará como forma permanente.

A própria massa ressecando-se
Determina a forma final exata,
Própria para ingressar no forno
Da terra fofa
De onde jamais retornará estátua.

Alberto Giacometti, Walking Man II, bronze, 1948. 

sábado, 7 de abril de 2012

COLEÇÃO PARTICULAR (27)

ESTREITO CAMPO VISUAL

Acossado,
Não posso me afastar o suficiente
Para ver tudo, o panorama.

Ocupo estreita área
Também disputada a cotoveladas
Por mal-educadas insignificâncias.

Que fazer senão dar saltos sucessivos
Para tentar ver alguma coisa
Por sobre os ombros do nada?


Roberto Matta, To Escape The Absolute, óleo s/ tela, 1944.

sábado, 31 de março de 2012

COLEÇÃO PARTICULAR (26)

TOPOLOGIA

Sempre olho
O espaço vazio entre os objetos
Como se esperasse dele alguma desestabilização,
Tremor que derruísse as colunas
De algum templo mental,
Enxurrada que removesse os pilares
De uma ponte imaginária.

A garrafa térmica,
O açucareiro,
A xícara,
O pires e a colher
São resistentes,
E em nenhum momento a toalha branca
Torna-se positiva nuvem
Erguida sobre eles:
Aqui estão absolutamente eles mesmos
Sem mim,
Pedras na Necrópole de Gizé,
Satisfeitos de nada aguardar,
Estoica posição.

E que tolice dizer
Que a xícara espera o açúcar e o café!
Eles não têm fé em mim
Como se fosse eu o seu deus.

Robert Rauschenberg, Card Bird VI, colagem, 1971.

quinta-feira, 29 de março de 2012

COLEÇÃO PARTICULAR (25)

FREQUÊNCIA

O pêndulo serve,
O pêndulo serve
Para marcar o tempo,
E para marcar o andar
Da música
Mesmo em silêncio.

Mas ainda serve o pêndulo,
Serve o pêndulo
Para encarnar o ímpeto
Do vento
Sobre o fruto no galho,
Sobre a palha nas mãos
Do espantalho,
Sobre o bambuzal,
Sobre a palmeira adolescente.

Presta-se o pêndulo,
Presta-se o pêndulo
Para lembrar
(linha curva no ar)
A criança que voava
Num balanço.

E ainda presta-se o pêndulo,
Presta-se o pêndulo
Para exemplificar,
Mais ou menos,
Meu pensamento
Lá e cá.


Victor Vasarely, Étude de Mouvement, técnica mista s/ tela, 1939.

terça-feira, 27 de março de 2012

COLEÇÃO PARTICULAR (24)

ALTITUDE

Que pródigo o esquecimento,
Milhares de fardos
Já lançados
Para fora
Do
Cesto
Do
Balão
!

Para onde foi tanto tempo
Nessa ampulheta aberta?
Forma imensa duna
De sacos de areia
Cujo cume quase toca
Este ponto de leveza
Em que me encontro.


Georgia O'Keeffe,  Sky Above Clouds II, óleo s/ tela, 1963.

sexta-feira, 23 de março de 2012

COLEÇÃO PARTICULAR (23)

NINFA SERIA.

Seus cabelos iludem os colibris.

Seus cílios fazem cócegas
No dorso dos peixes de um secreto lago.

Seus olhos têm a cor das castanhas
Flagradas na grama por focos de luar.

Um arroio espumante de luz se inicia
Na fenda entre seus lábios.

Sob seu queixo não há inverno.

Nascem flores em suas axilas.

Nos seus seios se ordenha
Sumo de pétalas róseas maceradas.

Seus dedos se enlaçam aos do vento
Para tocar a sineta dos frutos maduros.

Em suas unhas polidas submersas
As algas se miram
Enquanto na corrente se penteiam.

Seus pés plantam sons de folhas caindo.

Morde-se uma fruta inédita
Em seus tornozelos.

Por trás de seus joelhos
Um nicho para paisagens virgens.

Nenhum nevoeiro se expande
À altura das suas coxas.

Entre suas virilhas, entre suas virilhas
Clareira orvalhada.

Brancusi, La Muse, mármore, 1912.

quarta-feira, 21 de março de 2012

COLEÇÃO PARTICULAR (22)

PARLA, POEMA!

Será como trabalho de marchetaria.
Mas não usarás madeira:
Cortar longitudinais fatias
De sensações e idéias,
E colá-las, alternadas, umas às outras.

Em seguida,
Com ouvidos de escultor,
Imagina a figura jacente
No interior desse bloco:
Ainda não esculpida, ela já fala!


Gilbert and George, Postcard Sculpture, técnica mista, 1974.

segunda-feira, 19 de março de 2012

COLEÇÃO PARTICULAR (21)

PROCESSAMENTO

Neste quarto,
Cubo encantado
Como todo aquele que tem
Oito cantos internos,
Há trabalho sendo realizado:
Enquanto nos vértices superiores
Aranhas lhes fazem as tranças,
Nos quatros inferiores
Ratos roem as barbas do tempo.


Lucien Freud, Large Interior  W.11 (after Watteau), óleo, 1983.

domingo, 18 de março de 2012

COLEÇÃO PARTICULAR (20)

POEMA DESPRENDIDO

Caí de uma asa de mito,
Livre e esquecido,
Rêmige grisalha
Em espiral descendente:
Acima é mesmo verídico
O céu;
Mas embaixo
O solo é apenas figurado,
Página, papel.


Ives Tanguy,  Extinction des Lumières Inutiles,
óleo, 1923.

sexta-feira, 16 de março de 2012

COLEÇÃO PARTICULAR (19)

HÁ MUITO TEMPO

Abro o quarto dos números
Fechado há décadas:
Um lance de olhos
E recolho todos os dados
Evidentes
Numa panorâmica
Apressada;
Fecho-o novamente:
Desânimo de espanar
Tanta poeira acumulada,
Teias...
E aquele bolor de ressentiment(e)?!


Antoni Tàpies, Cabeça, técnica mista s/ madeira, 1995.

quinta-feira, 15 de março de 2012

COLEÇÃO PARTICULAR (18)

NÃO ABREVIAR

De vez em quando,
À janela,
Décimo andar,
Eu imagino,
Imagino,
Imagino,
Sempre imagino.
Mas não o faria jamais!
Por não ter pressa:
Já caio na vida
Em salto mais demorado:
Dá tempo de ir contando
Os andares,
E acenar para as outras janelas.


Alexander Rodchenko, Escada de Incêndio, fotografia, 1925.

domingo, 11 de março de 2012

COLEÇÃO PARTICULAR (17)

EXTRA-ESTUFA

São flores-cirandas
As que a beleza engendra,
Pétalas coladas
Com cuspe divino,
E as corolas espetadas
Nas hastes coletivas,
Filamentos de argila
Da espécie.

Mas o sol é quentíssimo,
E o vento evaporador:
Descolam-se as pétalas de louça,
Embora remanesça, por pouco,
A renda dos galhos em terracota.


Andy Warhol, Flowers, 1962.

terça-feira, 6 de março de 2012

COLEÇÃO PARTICULAR (16)

FILIAÇÃO

Nossas imagens têm agora
Equivalente nitidez
No mesmo porta-retratos:
A sua ainda está esboçada,
A minha, quase apagada.


Alex Katz, Black Shoes , gravura, 1988.

sexta-feira, 2 de março de 2012

COLEÇÃO PARTICULAR (15)

AO NATURAL

Meu amor,
Estamos aqui livres,
Sozinhos,
Espontâneos,
Heróicos,
Abertos
Para o que der e vier.

Vamos mostrar
Numa fotografia
As nossas partes
Íntimas,
A minha carteira
Fornida
E sua desprevenida
Nécessaire!


Larry Rivers, Bedroom, óleo s/ tela, 1955

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

COLEÇÃO PARTICULAR (14)

CALENDÁRIO

Talvez,
Em dia vindouro,
Eu me renda
E queira caminhar
Cabisbaixo
Pelas pedras frias
Em torno das quais
Perfazem-se os ciclos
Rígidos da temporalidade.

Mas, por enquanto,
Ainda me rebelo:
Queria desfazer
A circunferência
Dessa coroa de espinhos
E distendê-la num fio liso
De estrada, aparada
Dos externos marcos
De quilometragem.


Adolph Gottlieb, O Rapto de Perséfone, óleo s/ tela, 1943.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

COLEÇÃO PARTICULAR (13)

LENDA

Aquele poeta se descobriu
Imerso na felicidade,
E percebeu que seus poemas
Apenas envernizavam o que na própria vida
Já brilhava por si mesmo.
Não podendo ser infeliz
Nem redundante,
Jogou fora trincha e verniz,
E não mais escreveu:
apenas viveu dali em diante.


Camille Bombois, The White Horse, óleo, 1920

domingo, 19 de fevereiro de 2012

COLEÇÃO PARTICULAR (12)

SHOPPING

Não sei por que você tanto compra.
Minto, sei por que você tanto compra:
Por fé. Fé nas coisas fugidias.

Compra pequenas borboletas
Que adejam longe dos cemitérios.
Compra aqueles bichinhos
Que fogem da mata escura.
Compra peixinhos dourados
Que são lançados para fora do rio.
Compra óculos escuros
Para amortecer a visão do tempo.
Compra vendas lúdicas
Para brincar de cabra-cega com a vida.
Compra pais-nossos e ave-marias
Customizados em forma de sapatos,
Bolsas, roupas e aparelhos eletrônicos.
Compra para poder participar
Da romaria, carregando o turíbulo
Do seu perfume confundível
Pelo deambulatório da igreja profana.
Compra pequenas lascas de cruz-neon
Do capital senhor.
Compra a hóstia frita e o copão de 350 ml de vinho
Na abside-praça de alimentação.
Compra, compra, compra, compra
Indulgências baratas,

Porque, e afinal,
Não há lírios do campo
Nas vitrinas enfeitadas
Com a glória de Salomão.


Sigmar Polke, Measuring Clothes, pintura sobre tela, 1994

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

COLEÇÃO PARTICULAR (11)

AVANÇADA

Tinha nos olhos
Um estribilho de canção
Jocosa,
Arejada,
Lhana.

Isto não consentira
À velhice:
Não se fizera penumbra,
Não baixara as persianas.

Alice Neel, Autorretrato, óleo s/ tela, 1980.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

COLEÇÃO PARTICULAR (10)

A TARDE (VISTA DA JANELA)

Seis goiabas
Apodrecem, desterradas,
Sobre telhado de amianto
Seco e sujo.

O sol folheia a ouro
Quinquilharias de metal
Espalhadas pelo quintal
Seco e sujo.

Um beija-flor
Inspeciona, em vão,
Ilhas de verde não-florido.

A sombra rendada de uma árvore
Sobre uma parede amarelo-senil
Devolve a esta a ilusão
De receber tinta fresca.

Uma calça jeans
Pendurada num frouxo varal,
Agita as pernas aflitas e vazias
Como se tivesse pressa de adentrar
Pela noite.

Hans Hartung, Composition T 1973, Óleo s/ tela, 1973

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

COLEÇÃO PARTICULAR (9)

EDIÇÂO MANUSCRITA

Com cada carícia, deixo na tua pele
Uma narrativa.
Não sei como teu pergaminho
Comporta tanta grafia indelével.
Bom que eu possa reler
Esse poroso registro
De doces tramas textuais
Sem severa autocrítica.

Tal escrita não é da natureza fugidia
Do prefácio matinal,
Que por mais sol que exiba,
Logo se esbate no entrecho da tarde;
Ou das voláteis assinaturas aéreas
Que as asas firmam no ar;
Nem das traduções apócrifas
Que se rascunham velozes na água.

Ah, mas mistério é saber
Como o invisível se corporifica!
E quão estranho é que saias por aí,
Exibindo alguns episódios
Dessas minhas rapsódias epidérmicas ,
E ninguém os consiga ler.


Stanley Spencer, Double Nude Portrait: The Artist and his Wife, óleo, 1937.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

COLEÇÃO PARTICULAR (8)

FORÇA DESNECESSÁRIA

Terei voltado à superfície
Se não vejo mais o limite
Que o céu impõe ao mar?

Por trás das retinas adernadas
Tudo é imensa neblina
Sobre o plano oceânico.

Só ouço a percussão remota
Das ondas que se chocam
Contra as muradas do crânio.

No nauseante balançar
De águas tão soturnas
Já deve estar dissolvida
Qualquer suposta coerência
Dos meus atos.

Ah, a amnésia se aprofunda,
Uma âncora descomedida,
Para puxar ao sem-fundo
A frágil e banal corrente
Dos fatos da minha vida...

Julio González,  Cabeça Reclinada, ferro, 1930

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

COLEÇÃO PARTICULAR (7)

SOMBR-AÇÂO

Sombra que,
Cronométrica,
Desce pelas paredes,
Baixa-mar
Seca e sem sal.

Sombra que,
Roedora,
Devora ilesa,
Na ratoeira,
A isca dum filete de sol.

Sombra que,
Estrategista atrevida,
Invade o túnel
Pela saída.


Mark Rotko, Number 61, óleo s/ tela, 1953

domingo, 22 de janeiro de 2012

COLEÇÃO PARTICULAR (6)

ILH-EU?

Precisa ser
Numa ilha,
Desiderata.
Ali o poema não é enfurnado
(Núncio precário)
Numa garrafa
A lançar-se ao mar.
Ao contrário:
É trilha para dentro da mata
Insular.


Howard Hodgkin, After Matisse, óleo s/ madeira, 1995

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

COLEÇÃO PARTICULAR (5)

CONSENTIMENTO

Nunca ou agora,
Nada acontece
Na ágora.

Os olhos calam,
As bocas olham.


Jean Dubuffet, Tumultuous Landscape, tinta s/ papel, 1958

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

COLEÇÃO PARTICULAR (4)

AO REDOR DO SOL

Terminado o outono,
Ainda gravavam a terra
Os meus passos átonos.

Ao findar o inverno,
Ainda gerava nascentes
Meu degelo interno.

Encerrada a primavera,
Ainda não estava isento,
Sob a hera, de florescer.

Mas ao fim do verão, terá
Minha pele uma dívida
Lívida, insolvível com o sol
Ou terei saldo para solver?



Hellen Frankenthaler, Persian Garden, litografia, 1966.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

COLEÇÃO PARTICULAR (3)

O AGREGADO

A morte não é um invasor.
Não é senão um hóspede muito educado,
Fleumático e erudito professor de latim
Que ocupa o cômodo mais modesto da casa.
Senta-se conosco à mesa,
E com olhos fixos no prato
Sorve a sopa rala, nossa única refeição,
Limpa com cuidado os lábios no guardanapo,
E da mesa retorna ao quarto
Com um sorriso frugal e de fingida paciência,
De quem se basta apenas com o antepasto.


Georges Rouault, Um Juiz, 1935

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

COLEÇÃO PARTICULAR (2)

TROMBOS

Confesso por nós:
Eu tinha a ousadia
De sonhar.
Os sonhos se investiam
Pelas artérias dilatadas,
E mantinham irrigadas
As vísceras da realidade.

Era ainda agora... Mas
Que resíduos adiposos
Me esclerosaram,
Em estanque índivíduo,
Tão precocemente?

Algo estacionou os sonhos
Em coágulos de memória,
Como uma corda com nós
Muito espaçados.


Antoni Tàpies, Alaya, Técnica mista, 1998

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

COLEÇÃO PARTICULAR (1)

CURATIVO

De que vale
Na fala bruta
E concisa,
A secreta volúpia
Da palavra ferida
Se no olvido alheio
Ela cicatriza?


Frantisek Kupka, Musique,  óleo s/ tela, 1936.