Imagem do cabeçalho: "O Grande Canal de Veneza" (detalhe) de Turner

sexta-feira, 1 de junho de 2012

FACETAS (8)


Emergência
De ágil bisturi
Para abrir
O ventre inchado
Do dia:

Ah, as vísceras todas
Escuras,
Supuradas,
Embebidas em pus!

Nada a fazer.
Feche-se rapidamente
A incisão
Com pontos de luz.


Foto: Marcantonio

quinta-feira, 31 de maio de 2012

FACETAS (7)


O meu coração dispara
Na hora marcada,
Mas não acorda o mundo.


Foto: Marcantonio

quarta-feira, 30 de maio de 2012

FACETAS (6)


Vento.
Barco n’água.

Até logo, logo,
Logo se dissolvendo,
Já não o vemos mais...

Esteve mesmo
Aqui no cais?


Foto: Marcantonio

terça-feira, 29 de maio de 2012

FACETAS (5)


Tenho dois diamantes,
Esféricos, logo raros.

Em cortes longitudinais:
Córnea,
Íris,
Cristalino,
Vítreo,
Retina.

Ejetam-se de dois estojos ósseos,
Protuberantes, contundentes.

Desabridos, submetem-se ao risco:
São o que tenho de mais resistente.


Foto: Marcantonio.

domingo, 27 de maio de 2012

FACETAS (4)


Usou tantas e tantas
Máscaras sobrepostas
Que passou a lutar com elas
Pela posse do espelho,
Sítio arqueológico
Da valiosa solidão.


Foto: Marcantonio

sexta-feira, 25 de maio de 2012

FACETAS (3)


Amarrei as tiras
Das sandálias de Calíope
Enquanto ela, distraída,
Desviava os olhos
Dos meus olhos míopes.

Depois desta traquinagem
Fui cuidar da vida

Sem heroísmo.


Marcantonio

domingo, 20 de maio de 2012

FACETAS (2)


Flagro o domingo,
Dominus, senhor,
Patrão
De olhar mortiço,
Rindo rindo rindo
Da minha pretensão
De revolução pessoal
Sem serviço.


Marcantonio



sábado, 19 de maio de 2012

FACETAS (1)


Que fazer
Com este
Enorme branco
Da memória?

Se o fizer
Passar por um
Prisma
Dividir-se-á
Em
Sete vidas?


Marcantonio

quarta-feira, 9 de maio de 2012

COLEÇÃO PARTICULAR (32)


ENTRISTECENDO

Saio velando o sentido autônomo
Das ruas
Com meu cortejo lutuoso.
Vou abrindo um túnel mórbido
Com arcos pintados em tinta escura
E impermeável.
E lamento que o sol,
Tão respeitoso,
Tão imparcial ou indiferente,
Não seja solvente.


Edward Hopper, Approaching a City, óleo s/ tela, 1946.

domingo, 6 de maio de 2012

COLEÇÃO PARTICULAR (31)


A COR VERMELHA

O vermelho é cor interna,
Amenizada, retida sob a pele,
Nos substratos corporais.

E sob a tez do mundo,
Também, é vulcânica,
E cor análoga
Para as ficções infernais.

Visível, pode ser febril
Nas rosas
E nas mucosas sexuais.

Mas quando floral
Deve ser parcimoniosa
E razoável,
Pois um mundo saturado
De papoulas vermelhas
Seria inabitável.


Rothko, Sem Título, óleo s/ papel montado em madeira, 1959.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

COLEÇÃO PARTICULAR (30)


NÃO-COR

Branco das auroras simbólicas,
Dos globos oculares,
Dos esmaltados sorrisos polares.

Branco da falsa paz,
Do sal anfíbio,
Do linho irreal
Que traja a angelitude;
Branco, prefácio da criação,
Cal gélida na solidão
Das extremas latitudes.

Branco do passado sem palavras.
Branco das larvas do silêncio.
Branco do nada.


Alberto Burri, Cretto G 1, téc. mita, 1973.

sábado, 21 de abril de 2012

COLEÇÃO PARTICULAR (29)


O AMARELO

O amarelo se fecha,
Excludente.

Ferida incurável
Sobre o verde.
Lanterna circunscrita
Contra o azul.
Veia que lateja
Mas se retrai
No meio do vermelho
Vasoconstritor.

Oráculo indecifrável,
Queima,
Autônoma cor.


Paul Klee, Fire at Full Moon, aquarela, 1933.

sábado, 14 de abril de 2012

COLEÇÃO PARTICULAR (28)

A PERDA DO MOLDE

O corpo não tem repouso
Enquanto é barro ao ponto de modelar.
Nele trabalham dois escultores
Contrapostos em seus postos:
O acadêmico tempo
E a emoção contemporânea.
O primeiro trabalha com os dedos
Automatizados
Para representar a flacidez muscular
E a textura cutânea;
A segunda transtorna e sova a massa
Com os punhos cerrados,
Ou alisa a superfície brevemente
Com um indefinido estado de graça.

A figura jamais chega ao pretendido
Estágio de se copiar na cera frágil
Para que esta, diferente da vida,
Perca-se derretida pelo bronze quente
Que esfriará como forma permanente.

A própria massa ressecando-se
Determina a forma final exata,
Própria para ingressar no forno
Da terra fofa
De onde jamais retornará estátua.

Alberto Giacometti, Walking Man II, bronze, 1948. 

sábado, 7 de abril de 2012

COLEÇÃO PARTICULAR (27)

ESTREITO CAMPO VISUAL

Acossado,
Não posso me afastar o suficiente
Para ver tudo, o panorama.

Ocupo estreita área
Também disputada a cotoveladas
Por mal-educadas insignificâncias.

Que fazer senão dar saltos sucessivos
Para tentar ver alguma coisa
Por sobre os ombros do nada?


Roberto Matta, To Escape The Absolute, óleo s/ tela, 1944.

sábado, 31 de março de 2012

COLEÇÃO PARTICULAR (26)

TOPOLOGIA

Sempre olho
O espaço vazio entre os objetos
Como se esperasse dele alguma desestabilização,
Tremor que derruísse as colunas
De algum templo mental,
Enxurrada que removesse os pilares
De uma ponte imaginária.

A garrafa térmica,
O açucareiro,
A xícara,
O pires e a colher
São resistentes,
E em nenhum momento a toalha branca
Torna-se positiva nuvem
Erguida sobre eles:
Aqui estão absolutamente eles mesmos
Sem mim,
Pedras na Necrópole de Gizé,
Satisfeitos de nada aguardar,
Estoica posição.

E que tolice dizer
Que a xícara espera o açúcar e o café!
Eles não têm fé em mim
Como se fosse eu o seu deus.

Robert Rauschenberg, Card Bird VI, colagem, 1971.

quinta-feira, 29 de março de 2012

COLEÇÃO PARTICULAR (25)

FREQUÊNCIA

O pêndulo serve,
O pêndulo serve
Para marcar o tempo,
E para marcar o andar
Da música
Mesmo em silêncio.

Mas ainda serve o pêndulo,
Serve o pêndulo
Para encarnar o ímpeto
Do vento
Sobre o fruto no galho,
Sobre a palha nas mãos
Do espantalho,
Sobre o bambuzal,
Sobre a palmeira adolescente.

Presta-se o pêndulo,
Presta-se o pêndulo
Para lembrar
(linha curva no ar)
A criança que voava
Num balanço.

E ainda presta-se o pêndulo,
Presta-se o pêndulo
Para exemplificar,
Mais ou menos,
Meu pensamento
Lá e cá.


Victor Vasarely, Étude de Mouvement, técnica mista s/ tela, 1939.

terça-feira, 27 de março de 2012

COLEÇÃO PARTICULAR (24)

ALTITUDE

Que pródigo o esquecimento,
Milhares de fardos
Já lançados
Para fora
Do
Cesto
Do
Balão
!

Para onde foi tanto tempo
Nessa ampulheta aberta?
Forma imensa duna
De sacos de areia
Cujo cume quase toca
Este ponto de leveza
Em que me encontro.


Georgia O'Keeffe,  Sky Above Clouds II, óleo s/ tela, 1963.

sexta-feira, 23 de março de 2012

COLEÇÃO PARTICULAR (23)

NINFA SERIA.

Seus cabelos iludem os colibris.

Seus cílios fazem cócegas
No dorso dos peixes de um secreto lago.

Seus olhos têm a cor das castanhas
Flagradas na grama por focos de luar.

Um arroio espumante de luz se inicia
Na fenda entre seus lábios.

Sob seu queixo não há inverno.

Nascem flores em suas axilas.

Nos seus seios se ordenha
Sumo de pétalas róseas maceradas.

Seus dedos se enlaçam aos do vento
Para tocar a sineta dos frutos maduros.

Em suas unhas polidas submersas
As algas se miram
Enquanto na corrente se penteiam.

Seus pés plantam sons de folhas caindo.

Morde-se uma fruta inédita
Em seus tornozelos.

Por trás de seus joelhos
Um nicho para paisagens virgens.

Nenhum nevoeiro se expande
À altura das suas coxas.

Entre suas virilhas, entre suas virilhas
Clareira orvalhada.

Brancusi, La Muse, mármore, 1912.