Imagem do cabeçalho: "O Grande Canal de Veneza" (detalhe) de Turner

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

FACETAS (26)



Venta muitíssimo
Apenas para que as árvores
Possam ser trágicas,
Descabelando-se enlouquecidas
Como Cassandra,

E protestem e agitem
Seus guizos invisíveis,
Suas línguas planas,
Seus ramos (dedos bifurcados)
Indigitando o deus arbóreo.

Ou venta muitíssimo
Para que as árvores exemplifiquem
Que nenhum vivente
Move-se apenas por si mesmo
Desde seu íntimo.


Marcantonio

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

FACETAS (25)



Conheces bem as tuas mãos, não? Porquanto
Desde que nasceste esse duo te acompanha.
Seriam decepcionantemente familiares?
Poderiam ser ainda desavisadas e estranhas?

Dirias: banais mecanismos de pronta resposta
Como uma ratoeira ou espremedor de batatas?!

Replicas ao que implicou o polegar opositor?
Desse manual convívio todo mistério se aparta?
Ignoras das palmas rendilhadas a memorabilia vasta?

Acaso tudo o que reténs com esse simples complexo
Montado com ossos, juntas, tendões, veias,
Unhas, gordura pouca, pele enrugada, não te basta?

Sim? Por que não se incorpora a ti e, por fim, escapa?!


Marcantonio

terça-feira, 25 de setembro de 2012

FACETAS (24)



Não sei, não sei, talvez
Os porquinhos e o lobo
Habitem trêmulos de medo
A mesma frágil casa.

E, não sei, não sei, talvez
Sejam os eventos absurdos
Da vida, uivando lá fora,
Que forcejem a entrada.


Marcantonio

terça-feira, 18 de setembro de 2012

FACETAS (23)



Pouco sei das fases da lua,
E gosto da que mais alumia
A rua.

Essa que hoje vejo
Seria quarto crescente?
Não parece lembrar,
Como dizem,
O arco alvo e inclinado
De uma boca
Sorridente:

Para temperamentos
Apreensivos como o meu
Ela sugere, fatal,
Uma cimitarra
Fluorescente.


Marcantonio

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

FACETAS (22)



Tão neutra e calcária
A tua face post-mortem.
Não sei por que acreditaríamos
Que emulas imagem estatuária
Se há perda notável de volume,
Reduzindo-se a baixo-relevo
Modesto e honesto,
Sem prestidigitar
A representação ilusória.

Eu é que sobreponho ao teu rosto
A antiga tridimensionalidade
Pela troca vertiginosa
De sucessivas máscaras mortuárias
Ainda úmidas,
Como se recém-moldadas
No gesso da memória.


Marcantonio

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

FACETAS (21)



SOBRE ESTRELAS

a)

Eu vos direi:
Não ouço estrelas,
A história fez
com que se calassem,
Ou o fez a ciência,
Ou a nossa impaciência.

Não ouço estrelas:
Elas se perderam,
Traço estatístico, 
No censo
Dos temas poéticos.

b)

Ela pode não estar mais lá
E ainda cintilar aqui
Onde posso não mais estar.

c)

A estrela que há pouco eu olhava
Num átimo foi ocultada
Por nuvem transitória,
Tal como um indivíduo desaparece
Sob a história.

Lógico: nuvem passada, 
Estrela reavistada,
Brilha desde antes da história
Pessoal de quem a olha.

d)

Estrela só,
Brilho na pupila
De um ciclope cego,
Que não vê meu ego.


Marcantonio


sexta-feira, 31 de agosto de 2012

FACETAS (20)



À direita, o criquilar
Do naipe de grilos.
No extremo oposto,
Ladridos e uivos de cães.

E ao longo da rua,
Ouvintes mudos
Os postes,
Lumes que não vagam.


Marcantonio

domingo, 26 de agosto de 2012

FACETAS (19)



Na tua figura
O que reluz
Não é ouro,
Prata
Nem outro
Puro metal:
É brilho único
De amálgama
Físico-mental.


Marcantonio

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

FACETAS (18)



O silêncio
Da paisagem
Invernal
Torna a vidraça
Mais gélida.

E inquieta tu brincas,
Soprando nela
As antecipatórias,
As ansiosas,
As prematuras flores
Orvalhadas
Da tua vaporosa
Primavera íntima.


Marcantonio

domingo, 12 de agosto de 2012

FACETAS (17)


Vão diminuindo ano a ano
Os interlocutores do vento
Que uiva mais solitário
Em diálogo seleto:
Escasseiam as árvores que lhe respondam
Agitadas,
Mas ele não obtém sequer um aceno
Compensatório
Do rígido auditório
Formado por edifícios de ferro e concreto.


Marcantonio


terça-feira, 19 de junho de 2012

FACETAS (16)



De repente,
Os teus lábios
São limas.
Não limas da Pérsia,
Nem gomos
De laranja lima,
Repetindo doce
Rima,
Mas lima, ferramenta
De desgastar metais,
De retirar aparas,
Ou remover a pátina
Rara
Das palavras
Para acomodá-las
Em encaixes,
Esquadrias banais.


Foto: Marcantonio



quinta-feira, 14 de junho de 2012

FACETAS (15)


Eis o dia
Sorrindo aurora,
Os dentes tão perfeitos
Que desconfio postiços.

Às doze horas
Sorri discreto,
Na arcada duas falhas:
Faltam-lhe os caninos.

À tardinha
Nem sorri,
Mas canta um hino
E entrevejo, nos agudos,
Um vazio escuro
Na boca,
E os músculos flácidos
Da face amarela
O denunciam:
Um dia banguela.

À noite, some.
Correu com pressa
Ao protético:
Amanhã exibirá
Orgulhoso
O restauro estético.


Marcantonio

terça-feira, 12 de junho de 2012

FACETAS (14)


Meus pés
São iletrados,
Analfabetos
Dos seus rastros,
Não se dão conta
Das valas
Que, por atrito,
Criam no mármore.

Minhas mãos
São burras e simplórias,
Nada furtam do ar,
Nem aceitam em suas palmas
Essas folhas de água,
Esses frutos de fogo.

Meu tronco
Não subsidia
Nenhuma copa:
Meu crânio
Tão aéreo agora,
Tão narcotizado
De nuvens,
Sem olhos,
Sem orelhas,
Sem nariz.
Dentes sim,
Trincados para a memória.


Foto: Marcantonio

domingo, 10 de junho de 2012

FACETAS (13)


Sonhei com uma ampulheta
Pela qual escorria algum grão
Comestível.
Em vez de areia,
Talvez arroz,
Trigo
Ou aveia.
Que visão apetecível!
Nutrir-se do tempo
Era então possível.


Marcantonio

sexta-feira, 8 de junho de 2012

FACETAS (12)


Um poema-gravura,
Impressões minhas
Da vida que passa:
O papel pressionado
Sobre meu hálito
Que entinta
Uma matriz-vidraça.


Foto: Marcantonio