Imagem do cabeçalho: "O Grande Canal de Veneza" (detalhe) de Turner
Mostrando postagens com marcador A Musa. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador A Musa. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

ARMADILHA

Tento escrever um verso neológico
Onde você permaneça junto a mim
Ensimesmada.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

CAMINHOS

(Para Dade Amorim)

Escrever é,
com alguma sorte,
divisar surpresas
no mesmo trajeto:
da esquerda para a direita,
de cima para baixo,
direto.

Desenhar é
suspender-se ao vento,
figurar com a linha
novos trajetos
para o pensamento.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

DESCONSTRUÇÃO

Menino, eu costumava
desmontar os meus brinquedos,
buscando entrever
o misterioso coração da alegria.

Adulto, ainda permaneço
infantil anatomista,
tentando entender
como se oxigenam as células
das palavras
sem corrente sanguínea.


Pieter Brueghel, Jogos Infantis, 1560

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

ATONIA

A minha fé lírica
vai despencando
pelo poema,
degrau por degrau
até o térreo átono:
     este não-verso
     e último passo.


Alexander Rodchenko, cartaz para o filme
O Encouraçado Potemkin, de Eisenstein

domingo, 19 de dezembro de 2010

INSUFICIENTE

Todo o léxico é pouco.

Não é bastante a oceânica
língua
para inundar o silêncio da
planície.

Pouco.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

SEM RETORNO

Há uma palavra
que não tem para onde retornar,
porque não foi pródiga,
porque não saiu de casa.

Dürer, O Filho Pródigo, gravura em cobre

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

INCONSCIENTE COLETIVO?

Ignoro o estoque total
das minhas ocultas facetas.
O que translado para cá
nem sei se trouxe de mim:
muita vez me sinto apenas
um provinciano estafeta.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

SONS

Para o sentido da paisagem
A poesia não me abriu os olhos:
Eles já eram expertos.

Ela abriu os meus ouvidos.



CONTÍNUO OU DESCONTÍNUO?

Parece que a poesia
desdobra o ano
em 365 estações.

Ou quer a poesia
um ano
sem estações?

sábado, 27 de novembro de 2010

TALVEZ

Talvez eu diga algo fatal
Porque sou acidental.

Chagall, A Queda de Ícaro

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

EXPLETIVO

Deixa-me pôr para fora
O que aqui dentro desconvém,
O que de dentro não sei,
O que de dentro não vem.

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

POESIA ANDANTE

Que guia me trouxe
A este círculo vicioso
Do inferno
Que nunca se avoluma
Numa esfera real?

Gustave Doré, ilustração para a Divina Comédia, de Dante

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

AINDA LÁ FORA

Deixe a porta aberta
que a poesia concreta
há de vir
quando eu sair.

Matisse, O Violinista à Janela, 1918

domingo, 7 de novembro de 2010

OLHAR

Se houvesse apenas
uma verdade total
e evidente lá fora,
tudo seria ciência natural,
aqui, agora.

Mas, a poesia existe
porque há um lado de dentro
que quer ser visto
como lado de fora.




Man Ray, Undestructable Object

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

DA BUSCA

Buscando palavras
como quem aponta
estrelas cadentes...
Até o momento,
vi passar
uma apenas:      “tarde”.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

INEVITÁVEL

A palavra termina revestindo a vida
que eu pretendera desnudar.





















Lucien Freud, Garota com Olhos Fechados, Óleo s/ tela, 1987

terça-feira, 26 de outubro de 2010

REPTO

Tenho dúvidas
Se aqui, neste vazio
Comovido,
Já há um poema.

A simples menção
Da palavra ‘poema’
Já faz algo se agitar
Na cidadela:
São as outras palavras
Alvoroçadas;
Correm e se abrigam
Como se temessem
O dilúvio.
Dividem-se em grupos;
Formam assembléias;
Votam pela greve.
Algumas ficaram pelo chão
Se fingindo de mortas.
Mas ouço sua respiração
De covardes.

-Apareçam palavras poéticas!
Apareçam se têm entranhas,
Se tiverem coragem!
Apareçam! Covardes!

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

INDEPENDENTE

Obstinado,
o poema incubado
aflora,
na exigüidade
do teclado.
Assim como a vida
lá fora,
não perde oportunidade
de traduzir-se em flores,
mesmo
na saturação de cores
da pós-modernidade.



Klimt, Jardim com Girassóis, óleo s/ tela, 1906.

REBELDIA

Palavra que desatina:
dança             dança
          dança                      dança
                      sem música:
                                          só mímica

sábado, 23 de outubro de 2010

MENSAGEM

E se já fora dito
o que acabei de dizer?
É o có-digo!