Imagem do cabeçalho: "O Grande Canal de Veneza" (detalhe) de Turner

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Um poema para retomar o Azul Temporário


Após dois anos de silêncio, reinicio o Azul Temporário com um poema sobre o silêncio e o tempo. Procurarei mantê-lo ativo com três postagens semanais, mas nada sistemático, apenas um exercício livre e espontâneo, como sempre foi. Sigamos daqui.


O ÚNICO SOM

Além dos limites internos da casa
tudo são pálpebras se fechando.
O silêncio é o saber que as coisas
agora não excedem o ser coisa
e assim permaneceriam não fosse
o mediúnico relógio de parede
incorporar o som dos cascos do tempo,
aquele cavalo sem cor trotando
nas metálicas margens

de um caudaloso rio de imagens.


Cézanne, O relógio negro, o/s/t - 1869.



quinta-feira, 24 de abril de 2014

POEMAS EVISCERADOS (15)



ADÁGIO

Permaneceram os dedos,
Frios, sem as luvas de carne.
Mais delgados,
Menos anelares,
Anulados, sem expressão
De anelo.

Foram-se os anéis
Já mais largos,
Inúteis ornatos áureos
Em ossos lustrados,
Outrora dígitos,
Agora fragmentos
Para ábaco.


terça-feira, 8 de abril de 2014

POEMAS EVISCERADOS (14)



NÚMEROS SEM MEMÓRIA

Enfim encontra-se um conjunto
Numérico,
Não mais que despojos,
Desprendida pele seca
Das coisas concretas,
Pulmão que não traga mais ar
Ou pupilas áridas sem o sumo
Da luz.

Não mais dizer mil fios de cabelo,
Ou sete pássaros em bando,
Ou seis pães franceses,
Ou duas décadas de amor,
Ou décimo terceiro salário,
Ou três quilômetros para alcançar
A fronteira,
Ou meia dúzia de laranjas,
Nenhuma medida de carne e osso:
Dedos, braços, pés ou côvados...

Apenas os números sem carga,
Incorpóreos, não mais que sombras
Como as almas do Hades.


sexta-feira, 21 de março de 2014

POEMAS EVISCERADOS (13)



PNEUMOGRAFIA

No momento a necropsia
Busca revelar
A origem da tua ironia,
O ponto inflamado
De onde se irradiou
Entre as suas ideias.

Deixemos de lado, a princípio,
O abdômen murcho,
As asas hirtas do crânio pousado:
Comecemos pelos sedimentos
Do ar desencantado
Que passou pela tua traqueia.


sábado, 18 de janeiro de 2014

POEMAS EVISCERADOS (12)



RADIAÇÕES

Legistas doutos, às vezes,
Também deliramos,
Como quando buscamos
O oculto prisma que decompõe
A ausência de luz
Das furnas inóspitas do luto:

Como germinam essas cores feéricas,
Florilégios cromáticos,
Espectros irisados que recobrem
A tediosa monocromia da carne
E os tons rebaixados das vísceras exangues?

Serão como auroras boreais
Nas fronteiras entre o post-mortem
E os nossos olhos clínicos?


domingo, 12 de janeiro de 2014

POEMAS EVISCERADOS (11)



FUNÇÃO

Como se transmitia ânimo
Àquele mecanismo pesado?
Não mais importavam
Para o sujeito
Especulações, causa e efeito:
A noite já se fechara,
As chaves jogadas para fora
Do encéfalo frio,
Esse além onde o resto
Seguia inconcluso circo:

A morte era uma jaula aberta,
A vida, um leão rugindo no pátio
De ladrilhos
Enquanto o domador dormia
Com a acrobata na cama elástica.


sábado, 4 de janeiro de 2014

POEMAS EVISCERADOS (10)



PURGAÇÃO

Então,
Agulhas começaram a apontar
Na pele,
Agudas, mas frágeis,
Feitas de fino e translúcido vidro:

O organismo começara a expulsar
Todas as crenças no invisível.


segunda-feira, 4 de novembro de 2013

POEMAS EVISCERADOS (9)



LENDÁRIO

Quando abrimos sua imaginação
Uma onda retida
Saltou para fora
E tudo se envolveu em maresia:
Era o parto do que deveria ser marinho
Não fosse natimorto.

Recolhemos os despojos íntimos
Tal qual esvaziam as redes
Os pescadores:

Búzios ácidos
Algas
Anzóis
Alguns peixes sem olhos
Anêmonas sonâmbulas
Areia sal sal sal
E um fragmento
Do mítico tridente
De Poseidon.


terça-feira, 29 de outubro de 2013

POEMAS EVISCERADOS (8)



RESUMO

Por trás da cartilagem do nariz
Coisas semelhantes:
Nuvens e datas, datas e nuvens.

Sobre a almofada do cérebro
Uma fruta bichada apodrece,
O verme é uma cifra.

No redil estreito do coração,
Nomes de ruas e vielas.

No estômago,
Translúcida úlcera:
Lágrimas congeladas.

Na garganta,
Um despertador travado,
Os vocábulos jamais acordarão.

Nos intestinos,
A noite sem-saída
Dos bosques.  

     

sábado, 26 de outubro de 2013

POEMAS EVISCERADOS (7)



PAISAGISTA

A altura da coluna dorsal,
Por dentro,
Um jardim planejado em segredo
Entre venoso arvoredo:
Ali pulsa imponente flor central
Que gira, mas não é pelo sol
Quente:
Volta-se com paixão
Para a abóbada óssea,
Guarita do insone e cinzento
Jardineiro,
Que ilumina o horto
E dá nome aos espécimes novos
Do lírico canteiro,
Fazendo arranjos com os delírios
Dos lírios absortos,
Inocentes e propensos ao exagero.


domingo, 20 de outubro de 2013

POEMAS EVISCERADOS (6)



TOLICE

A cavidade abdominal
É um nicho perfeito,
Segundo dizem os tolos,
Para a ausência de santidade:
É por ali que se fincam
(supõem)
As raízes tuberosas do pecado,
Entre vísceras
E órgãos
Nos quais jamais se executará
- concluem -
Uma das sublimes 
Fugas de Bach. 



terça-feira, 15 de outubro de 2013

POEMAS EVISCERADOS (5)



POR PARTES


Antes os aforismos fraturados
Que os dias chuvosos dos grandes tratados.

O fragmento e seu valor de larva
Que insinua a falta do complemento.

Por exemplo:

Um trecho de veia, dois centímetros:
Falta o sangue.
Ou uma fibra de músculo,
Falta o movimento.
Um retalho do estômago:
Falta a fome.
Uma secção de uretra,
Onde a urina e o esperma?

E veja que as coisas impalpáveis
Também têm suas partículas,
Como os fonemas da bela frase floral 
Com que tu abrevias o inventário dos males.

Ou os segmentos do teu sorriso
Separados por vírgulas amarelas
Quando defendes a tese
De que a felicidade é indivisível esfera.

Um todo sem partes.


segunda-feira, 14 de outubro de 2013

POEMAS EVISCERADOS (4)



SUTURA-ESCRITA

Desenvolver a habilidade
De selar com linha e agulha
As feridas abertas. Sobretudo
Os talhos na cabeça.

Linha e agulha são palavras,
E o trançado em vírgulas
Vai até o pseudo ponto final
(essa célula que se divide),
Nada mais que laçada. Nó.

A finalidade? Uma cicatriz
Visível: fóssil de centopéia,
Insígnia, coroa, troféu.

Mas se fosse um corte preciso
Na jugular,
Tudo isso seria esforço inútil:
O vermelho inútil, perdendo-se.


sexta-feira, 11 de outubro de 2013

POEMAS EVISCERADOS (3)




LAUDO

Fora do teu tórax nem tudo está feito:
É o que sugere o vento incessante
A agitar as águas do estreito
De Bósforo.

Por dentro, a energia quase dissipada,
Eólica:
A alma pouco sopra:
Fica o veleiro à deriva no teu peito.

Outra travessia é iniciada.


terça-feira, 8 de outubro de 2013

POEMAS EVISCERADOS (2)



DISSECAÇÃO

Há uma pele na escrita,
Certo que dura duríssima
Por variada leitura
Crônica anacrônica.

Vale-nos um caco de espelho,
À maneira de bisturi,
Para lições de subjacências
Anatômicas.

Pela incisão veremos surgir
Músculos, tendões, nervos
Veias, artérias
E, sim, um fígado figurado
Que se regenera.

Porém, mas ao fundo
(tão íntimo que além-mundo)
Deparamos
Um luminoso osso externo,
Quiçá de fêmur adverbial,
Patela, clavícula ou escápula,
Atravessado - incomodando -
No estômago abissal
Da Via Láctea.


domingo, 6 de outubro de 2013

POEMAS EVISCERADOS (1)



TRANSPLANTE

A poesia é a flor doméstica
Que não está no vaso:
Alou-se ao ser cortada do galho
E fugiu para o topo frio da montanha,
Da montanha que não se ergue no vale,
Rarefeita que foi pela visão,
A visão que não se encontra nos olhos,
Mas orbitando ao redor dum músculo cardíaco
Que não pulsa no tórax original.



quinta-feira, 29 de agosto de 2013

ABECEDÁRIO (z)



“Z”, DE ZODÌACO

Suspensos no ar
Há moldes invisíveis de mãos,
Feitos em não sei qual matéria permanente.

Vez ou outra,
Enganchamos os cabelos
Na constrição de alguma garra;
Ou algum indicador fixo
Reproduz, sem intenção,
O arco de nossas sobrancelhas;
Ou um polegar se aplica às nossas faces
Como se as quisesse virar para o outro lado.
Mãos abertas, ocas e alongadas
Podem fazer par acidental
Com uma de nossas mãos
Para batermos palmas sem som.

Talvez ao recuarmos recebamos
Tapinhas nas escápulas,
Ou nos ponhamos a espantar moscas inexistentes.

Ou cortemos o ar com a quintessência
De lâmina numa espada fictícia.

Tantas destras e sinistras,
Flutuantes móbiles,
Devem ser enigmas de gestos não concluídos,
E apenas poderemos interpretá-los
Se calçarmos como luvas de gesso
Essas mãos alienadas.


Anselm Kiefer, Merkaba, 2011



domingo, 25 de agosto de 2013

ABECEDÁRIO (x)



“X”, DE XEQUE

Param as rodas
E cada coisa giratória.
Repousa a palheta
Do aerofone e tudo o mais
Que seja vibrátil,
Tal qual se trava a língua
Ante o ácido verbal,
Coalho da oratória.

Emperra-se o mecanismo
Que ajusta os telescópicos
Girassóis
Quando ainda estão
Cabisbaixos para o sul.

A linha condutora
Do sol
Rompe-se
E o fixa,
Broche
Num colo azul.

As horas entrançam-se,
Lavor supra-aracnídeo
De teia pegajosa.
E dessedenta-se o sal
Do ar
Com as pétalas das rosas.

Nunca as árvores foram
Tão árvores:
Suas raízes encaminham
A seiva bruta do silêncio
Ao refino das copas,
Antes eloqüentes, ora surdas.

As vidraças estão jateadas
Pelos últimos beijos
Do vento gélido
Agora engessado,
E pássaros cristalizam-se
Sobre a galhada,
Frutos emplumados.

O rio cruza seus braços
Ante o estorvo
Do mar,
Faz-se lago opaco.
E, se tornar a correr,
Retrocederá:
Sua nascente será sorvo.


Antoni Tapies, Journal, litografia, 1968.

sábado, 20 de julho de 2013

ABECEDÁRIO (v)



“V”, DE VERBAL

Passeio mentalmente
(é sempre apressadamente)
Pelos três reinos da natureza
Em busca de uma metáfora
Para o teu corpo:

Extraí amostra de vegetal,
Planta que dá única flor,
Corola profunda sanguínea,
Pétalas ajustáveis, carnívoras.

(Não está bem.)

De outro reino capturei
Ser alado,
Asa que salta nua,
Rodeia dentro da noite
E retorna pouso-cópula.

(Não está bem,
Esse ciclo
Inevitável de ressurreições
Imagéticas.)

Do mineral
Reino do qual se engendram
As coisas-coisas
Quase nada me serve:

Mas ocorreu de ver seu corpo
Um cântaro todo face interna
Que me recebe, banho de caulim.

Nunca estará bem: as metáforas
Estão sempre por fora,
Quais cromos colados sobre
Fundo mistério.Ou roupa.

Teu corpo repele substituição.
Ou representação.


Anselm Kiefer, da série Women of Antiquity, 2004.
 


sábado, 13 de julho de 2013

ABECEDÁRIO (u)



“U”, DE UNGUELADO

Reparo nas tuas unhas
Sujas,
Essas lâminas,
Essas dez enxadas minúsculas,
Esses raspadores.

E algo se arrancou dessa parede
Para a tatuagem trêmula
Dessas dez gretas,
Dez falhas,
Dez condutos de angústia.

A cal recolhida
Entre as unhas em contínua partida
E a orla das digitais
É suficiente para acelerar a decomposição
Do seu coração-minuendo.


Antoni Tàpies, Lectura, téc. mista, 1998.


sábado, 6 de julho de 2013

ABECEDÁRIO (t)



“T”, DE TÊMPERA

As cariátides que sustentam
A arquitrave noturna -
Anteparo do sol - me apavoram:
Não são as lisas colunas por onde correm
Filetes da luz morna do sono,
São instáveis, postadas viúvas
Do serralho de Cronos.

Elas têm caras negativas
De estrelas escuras,
Olhos vedados com betume
Que mesmo vazados
Não cuspiriam lume.
Seus dentes são de basalto:
Frontispício de gargalhadas sinistras.
Os cabelos, um leque farto de verrumas
Espetadas para o alto.

Elas sabem que o sol nunca é deposto,
E avançam para o portal da minha insônia,
Desertando de seus postos:
E a laje do firmamento fica a flutuar a custo...
Pavor! Não posso dormir sabendo
Que a estabilidade do universo
Depende agora do socorro dos meus músculos.


Anselm Kiefer, Jericho

quinta-feira, 23 de maio de 2013

ABECEDÁRIO (s)



“S”, DE SANIDADE

Tal como Hölderlin-Scardanelli
Ou Vincent em Saint-Rémy,
Tenho apenas uma janela,
Depois que enlouqueci:
Meus olhos são filtros outonais
Que igualam as estações:
Resta-me apenas afiar os ouvidos,
Quem sabe não ouço ruídos
Originais.

Entretanto, à meia-distância
Vejo o que parecem anjos
De tranças
Empoleirados no muro.
Eles dizem:
Somos suas idéias, e pousamos
Em tempos distintos,
E não voamos em bando rumo
Ao futuro.

Quando o dia já escurece
Remanesce na relva do jardim
Um estreito trecho iluminado,
Retangular, plana cama de luz
Em que algum dia hei de deitar,
Liberto por compensatório
Bônus de tempo,
Para desfazer a ortogonalidade
Terapêutica da loucura
Em 360 graus de firmamento.


 
Gerhard Richter, Sem Título, óleo sobre fotografia, 1994


sábado, 11 de maio de 2013

ABECEDÁRIO (r)



“R”, DE RUMO

Talvez o tempo tenha absorvido
Todos os matizes mentais
Neste descampado de álgida brancura,

Ou talvez eu esteja um cisco de mármore
À deriva na esclerótica de um olho imenso
Sem conseguir me aproximar da íris.

Talvez eu tenha me feito o avesso
De alguma pálida palavra
Pousada no alvor da folha de papel.

Talvez a anemia absoluta
Tenha acometido a minha imaginação
Num dos tantos sangramentos verbais,
E eu esteja restos e despojos mortais
Num subterrâneo descolorido.

Mas talvez as cores e as formas
Venham descendo em avalancha
E eu espere por elas no sopé
De uma montanha nevada.


Anselm Kiefer, Ich halte alle Indien in meiner Hand, guache e lápis sobre foto, 1995. DAQUI                                                                                                


segunda-feira, 15 de abril de 2013

ABECEDÁRIO (q)




”Q”, DE QUANDO

A espera a tudo vai tornando
Descontínuo.
Somente ela, a própria espera,
Impõe-se como longa estrada-distância
Ou túnel-ânsia.

Fecham-se as janelas adicionais
E as portas coadjuvantes,
Laterais.
As sequências se fracionam,
Não há gotas caindo
Nem escala solar,
Pois a luz não muda na sala de estar esperando,
E os únicos números existentes
São os marcos alienados intrínsecos
Aos minutos da própria espera sem agora...

O que vem de lá e tanto demora?


Anselm Kiefer, Sulamith, téc. mista, 1983.


domingo, 31 de março de 2013

ABECEDÁRIO (p)



“P”, DE PLACIDEZ


Não posso contribuir para a enorme antologia
De poemas sobre o espelho,
Não há o que especular:
Essa imagem que não diverge de mim
Na lâmina fria
É apenas marionete servil
Que movo com auxílio de fios de luz.
E nem há como supor que seja eu o reflexo aprisionado
E ela o animal racional que me observa
Dum extremo quadrangular de outro mundo:
Tenho alento que a embaça.

E me atenho cegamente às leis da ótica
Que fui capaz de decorar na escola.

Além do mais, os reflexos da toalha de cor sanguínea
Pendida do toalheiro (me lembra um pedaço de carne
Pendurado num gancho de açougue)
E dos objetos de barbearia e higiene
Na pia do banheiro (sobretudo o sabonete já gasto)
Impossibilitam qualquer divagação metafísica.


Anish Kapoor, Cloud Gate, Chicago

terça-feira, 26 de março de 2013

ABECEDÁRIO (o)



“O”, DE OUTRORA

Repare nos sapatos,
Polidos, brilhantes,
De cromo alemão.
Mas beijam o chão.

Repare nos sapatos,
Rotos, baços,
Bagaços sem duração.
E beijam o chão.

Repare nos tênis,
Os que custam poucos níqueis,
Os que valem quinze vezes
Uma boa refeição.
Todos acarinham
E beijam o chão.

Repare nas sandálias,
As de borracha,
Ou aquelas cujas tiras
Sobem pelos tornozelos,
Ou as de couro, sem zelo
Na produção.
Todas feitas para o beija-chão,

O mesmo chão que enterrará
Os pés
Após tantos passos passados.

Por isso é justo que haja
Um museu dos calçados.


Anselm Kiefer, Die Woge, téc. mista, 1995. (Daqui)


terça-feira, 19 de março de 2013

ABECEDÁRIO (n)



“N”, DE NADIR

Eu cresço pelo que absorvo,
O sorvo de estrelas a irrigar
A feérica madrugada,
De onde se seguirá a aspiração
Pela manhã tão decidida
A não olhar para trás
E a recusar a via de retorno
Ao Hades.

Para além da cabeça do dia,
Os signos dormentes no ventre da tarde,
O pensamento dobrado ao meio
Por onde o sangue pouco flui
E o conseqüente formigamento
De luzes ocultas que logo se acenderão.

Um pouco mais, e a transfusão
Sanguínea do crepúsculo
Na veia vazante do vazio...

Mas eis no céu outro jorro
De linfa azul-marinho
Com grânulos luminosos nela infusos.

É assim que aumento de tamanho:
Os olhos descerrados,
Incompetentes para chorar,
E os poros em estado dilatado de alerta.


Julian Schnabel, Sem título, técnica mista, 2011. (Daqui)

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

ABECEDÁRIO (m)



“M”, DE MORTAL

Eu não via um cavalo
Desde o século dezenove,
E agora há meia dúzia deles
Vagando pelas ruas deste bairro.

Observei ontem que um deles, o pardo,
Deitou-se no solo quente da tarde,
Talvez para sentir toda a extensão do próprio corpo.
É o mesmo que dispara sobre calçamento urbano,
Relinchando como um louco. 
Parece não gostar do ser eqüídeo.

Causa espanto o mais velho do bando surreal:
Macilento rocinante nesse entrecho quase rural:
Os ossos sobre suas ancas
Parecem o cabide para a túnica da morte.
Tem olhos sem apetite, embora coma ainda
Do mesmo capim sem fim.
Surpreende que não tenha chagas
Nas patas de aparência empedrada e gasta,
Mas na sua testa já se engasta a protuberância
Do que parece ser um córneo único helicoidal:
É provável que pertença
A alguma forma subjacente
Ao seu destino de besta de carga banal.


Gerhard Richter, Townscape M3, óleo s/ tela, 1968. (Daqui)