Imagem do cabeçalho: "O Grande Canal de Veneza" (detalhe) de Turner

terça-feira, 23 de agosto de 2011

PROVAS DO ARTISTA (55)


ORGÂNICO

Éden subscrito,
Serão flores
As dores?
Pétalas
As lágrimas?
Sépalas
As mágoas?
Borboletas
As feridas?
Mansa relva
A injustiça?
Pólen
O edulcorar
A vida?

Poesia,
Desanuvia
Os meus olhos,
Tem piedade
De mim!
Eu não quero,
Com esmero,
Estrumar
Um privado,
Inútil,
Fútil
E volúvel jardim.

Franz Krajcberg, xilogravura, 2003 (Daqui)




















Mais sobre Krajcberg AQUI

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

PROVAS DO ARTISTA (54)


AMPLO

Eu já me distendo, praia
Na maré baixa;
Ora vejo dois horizontes.
E as desilusões,
Outrora grandes ondas
De afronta e perda,
Vêm em vagas notícias,
E me beijam humildes
A fronte,
Larga faixa, serena, seca.


Mira Schendel, s/título, gravura (monotipia), 1966 (Daqui)

sábado, 20 de agosto de 2011

PROVAS DO ARTISTA (53)

A VIDA

Vi nuvens negras
Apressadas,
Como que atrasadas
Para um encontro
Comigo
Noutro lugar.

No entanto,
Não ventava...

E havia luar!


Mario Gruber, Idílio na Noite, gravura em metal, 1963



















Mais de Mário Gruber AQUI

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

PROVAS DO ARTISTA (52)

A PALAVRA MORTE

Mover maxilar
E mandíbula,
Martelar
Aquela palavra
Unívoca,
(Diamante terrível)
A mais resistente
E densa,
Triturá-la
Até os limites
Do incompreensível,
Da falta de siso,
Da aparente
Desavença,
Mesmo que me quebre
Os dentes
E me custe o sorriso
De nascença.


José Guadalupe Posada, La Catrina, xilogravura, 1895



















Mais sobre Posada AQUI

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

PROVAS DO ARTISTA (51)

DO SÍMBOLO

É tanto o que não vejo
A despeito do ensejo
De olhar.
Só perceberei perfiladas
As duas faces da moeda
Se, no espelho, uma delas
Desvalorizar.

Doutro modo,
Serão perfis alternados,
Visão bipolar;
Ou unidos, e presumidos
Na espessura,
Sem feição, cara ou coroa.
Sem figura.


Escher, Fita de Moebius I, xilogravura em 3 cores, 1961

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

PROVAS DO ARTISTA (50)


REMOÇÃO

E as palavras surgem aos poucos
De onde não eram percebidas,
Providentes formigas
Ao redor dos despojos
De um animal maior:

É a sensação morta
Que o poema transporta,
Alheia a si, ela migra:
Que estranha ilusão de sobrevida!


Escher, Fita de Moebius II (formigas)
Xilogravura em três cores, 1963.



terça-feira, 16 de agosto de 2011

PROVAS DO ARTISTA (49)

NAS SUPERFÍCIES

De profundo, nada.
O mundo, clichê lacônico,
Nas anódinas fachadas
Nunca alteradas
Por descontínuos ventos:

Frases da década de sessenta
Grafitadas
Ladeiam os letreiros coloridos,
Que anunciam aos insaciáveis
Os inoxidáveis novos tempos.


Barbara Kruger, Sem título, foto-offset litografia e serigrafia

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

PROVAS DO ARTISTA (48)


DEMANDA E OFERTA

A inspiração só me cede
O que não peço,
Não quero a face avessa,
Duvidosos versos
Saltando duma jazida.
Almejo a lavra amnésica,
Ao contrário, e ativa:

Enterrar o poema
No anverso da vida.

Iberê Camargo, gravura em metal, 1966.

domingo, 14 de agosto de 2011

PROVAS DO ARTISTA (47)


DATAS

Para todos os dias
Fracionados,
Os inevitáveis
Dois vinte quatro
Avos
Com tristeza:
Não há como remover
Aquela ausência à mesa.

Käthe Kollwitz, litografia sobre papel japonês,  1903.


sábado, 13 de agosto de 2011

PROVAS DO ARTISTA (46)


PARADOXO GEOGRÁFICO

Vejo mundos fantásticos!
Porém, enquanto os sinto
Não posso transcrevê-los.

Se de silêncio é sua geografia
E a descrição
O ato mesmo de perdê-los,
Alguém me acreditaria?


Fernando Luchesi, A Árvore da Vida, serigrafia, (Daqui)




















Sobre Fernando Luchesi AQUI

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

PROVAS DO ARTISTA (45)


SEM PALAVRAS

            Ternura,
Suave pálpebra
Sobre o olhar imperfeito,
Suspende a procura
Dos defeitos da causa:
A pergunta pousa,
Cinza borboleta;
A palavra, de súbito obsoleta,
                Pausa.

Antonio Poteiro, Árvore, serigrafia (Daqui)




















Sobre Poteiro: http://www.antoniopoteiro.com/

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

PROVAS DO ARTISTA (44)


IMPRESCRITÍVEL

A poesia tem
Advogados,
Professores
E sacerdotes.

A poesia tem
Concílios,
Conciliábulos
De autoridades
Com capuzes
E archotes.

Mas não a minha,
Pequenininha,
Que não tem papas
Na língua ativa
Que vai a Roma
Sem propedêuticas
Acadêmicas
Ou diplomas.

Apenas sabida
Se viva assoma
Nas papilas
Gustativas.

Goya,  água-forte da série Los Caprichos, 1796-1798

terça-feira, 9 de agosto de 2011

PROVAS DO ARTISTA (43)


INFRA

Sob o obturador da minha
Pele
Não trabalham no escuro
Vísceras e músculos:
É luz que maceram,
Inda que luz de crepúsculo.


Antoni Tapies, Sem Título, litografia, 1967

domingo, 7 de agosto de 2011

PROVAS DO ARTISTA (42)

NARRATIVA

Longa busca
Inconclusa.
Sede constante.
Implacável cerco.
Exausto
Enfio a cara
Na areia quente.
Abro a boca para gritar
O brado libertador
Que no peito aperto,
Mas engasgo com o deserto.

Emil Nolde, O Profeta, xilogravura, 1912

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

PROVAS DO ARTISTA (41)

UNO OU MÚLTIPLO

Em geral almejo um poema vário
Efeito de um prisma primordial
Pelo qual passe o sentido totalitário
E pérfido do universo,
Vazando doutro lado um ser plural.

Mas para te ofertar no transe da dor
Quero algo diferente, unitário;
Forma fechada
E contraída de fusão dos contrários,
Elipse continente
De toda chuva, todo rio, todo oceano
Aparente;
Lágrima ímpar de esperança inundada
Junto ao teu peito, escapulário,
Pingente.

Miró, Composição, litografia a cores  (daqui)

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

PROVAS DO ARTISTA (40)

CONSTANTE HUMANA

Todos os idílios
Tornaram-se críveis,
Cotidianos os impossíveis,
Acessíveis as coisas raras!

Ah, ainda assim,
Essencialmente,
Eu não mudara.

Regina Silveira, Metamorfo II, litogravura, 1980 (daqui)

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

PROVAS DO ARTISTA (39)

PÉLAGOS

Há ilhas em mim
Que não estão no mapa dos cinco sentidos:
Olhos, nariz, boca e ouvidos
Não reconhecem tal arquipélago
Nem dele sabem os radares da minha pele
Continente.

Lá vivem degredados
Mitos ilhéus sem face
E cegos como Tirésias
Porque vivem sob um céu anterior aos astros
No extremo arcaico do meu império
Onde esse sol dos trópicos nunca nasce.


Picasso, Minotauro Morrendo, água-forte da série Suíte Vollard

terça-feira, 2 de agosto de 2011

PROVAS DO ARTISTA (38)

QUIROMANCIA

Um dia, algo cairá das minhas mãos
E não saberei por quê.

Um dia, estarei diante daquela porta
Como se fora o filho pródigo,
E ao adentrá-la estarei saindo.

Um dia, nascerá do meu coração uma árvore.
E não será uma secóia.

Um dia, farei uma escada com meus livros
E o último degrau será a borda dum abismo.

Um dia, irei ao cemitério como quem vai
A um batizado,
E compreenderei tudo o que amei
Me acreditando odiado.

Um dia, o vento dirá com dicção clara
A frase apócrifa que numa noite medonha
Me sussurrara.

Um dia, saberei que poderia ter tido a vida
De qualquer outro,
Fosse o pássaro, o peixe, o cordeiro ou o lobo.

Um dia mirarei as estrelas da Via Láctea,
E me será indiferente se o que vir for
Muito ou pouco.


Rembrandt, A Volta do Filho Pródigo, água-forte.

domingo, 31 de julho de 2011

PROVAS DO ARTISTA (37)

MALDITA COMÉDIA

Não creio que me dês a mão, ó
Autodenominado poeta maldito!
Tenho subvisão, é pouco o que enxergo;
Como iria guiar-te? Seria grande engano:
A minha aparente lucidez busca abismos,
E a tua suposta loucura não vai ao fundo,
                             Ama o primeiro plano.


William Blake, Dante e Virgílio à Porta do Inferno

quinta-feira, 28 de julho de 2011

PROVAS DO ARTISTA (36)

VARIAÇÕES EM TORNO DA LUA

    Dedicado à poeta Cris de Souza

Uma flauta impressionista.
Debussy? Ravel?
E a lua, odalisca lânguida,
Dança no céu.

B

Lua, globo sem pupila,
Olho sem retina,
Não nos julgas, nada vês
Da humana insensatez.

C

O céu cessa de chorar
Cai a última lágrima
Soberana:
A lua nacarada
Sobre a poça urbana.

D

A janela se orna:
A névoa, cortina;
A lua, borla.

E

Nave lenta,
Nunca zarpa
Nem recolhe
O velame:
Vela, atenta,
O hemisfério
Que dorme.

F

Pequena reserva de sol
Que atenua o medo
Da noite eterna
- O dia apenas hiberna! -
Solidária lua, talismã
De fé na luz da manhã.


Renina Katz,  litografia sem título, 1997 - Imagem daqui

terça-feira, 26 de julho de 2011

PROVAS DO ARTISTA (35)

ÁUDIO

Do sobressalto ao riso
Oscila o meu humor:
No íntimo amplificador,
Com minha voz em off
Em tom de Boris Karloff,
Estou me narrando
Um filme B de terror.

Goya, gravura da série  Los Disparates, água-forte, 1819-1823

domingo, 24 de julho de 2011

PROVAS DO ARTISTA (34)

TRISTE FIGURA

Há momentos de delírio, enfim,
Quando suponho ter na mão um espadim,
Leve como a navalha de Occam,
Com que eu possa estripar as esfinges:

- Proponde enigmas! Vinde!

Na outra mão, égide lustrosa
Para devolver os raios das estrelas
À origem nebulosa:

- Vai de retro, ilusão!

Monto um cavalo magérrimo,
Sem antolhos, esfalfado,
E que jamais foi ferrado,
Seus cascos se gastam na rocha bruta:

- Escuta: precisamos ter os pés no chão!

E um fiel escudeiro. Escudeiro? Escudeiro!

- Cadê o meu escudeiro, ó solidão?


Salvador Dali, Dom Quixote, litografia 

sexta-feira, 22 de julho de 2011

PROVAS DO ARTISTA (33)

BESTIÁRIO

Será apenas
Busca mítica
Esta ânsia neológica
Por uma palavra
Paleolítica?

Gilvan Samico, O Sagrado, xilogravura, 1997


















Mais sobre Gilvan Samico: Aqui

quinta-feira, 21 de julho de 2011

PROVAS DO ARTISTA (32)

CHARQUE

   Para Luis Eurico de Melo Neto

Ainda poderei usar aquelas palavras?
As mesmas que ontem formavam corpos
De ruminantes bovinos
Em currais de satisfeita esperança?

Eram lerdas, mas gratas, anchas,
Como se o sentido do mundo
Se lhes escorregasse, suave massa,
Pela garganta.

No entanto, foram sangradas, escalpeladas,
Cortadas em postas finas
Para secas mantas:
Assim expostas, conservavam por instantes
Um rubor úmido,
Embebidas, em parte, no próprio sumo
Extraído em meio à tradicional carnificina.

De si mesmas lavadas,
Jazem agora sob ávidas camadas de sal,
O sal em cristais, sedento e frio vampiro.

Ainda poderei usar estas palavras
Em decomposição adiada?

Danúbio Gonçalves, Xarqueada, Xilogravura, 1952
















Sobre Danúbio Gonçalves: Aqui ou Aqui

terça-feira, 19 de julho de 2011

PROVAS DO ARTISTA (31)

NO AR

Ainda não vejo a beira do mar,
Mas a maresia vem me saudar
Com suas asas odorantes, altas.
Estar em casa... É de marejar:
Ondas antigas
Já quebram nas minhas pálpebras.

Carlos Cruz-Diez, Composição, gravura, (imagem Daqui)



Sobre Cruz-Diez: http://www.cruz-diezfoundation.org/en/foundation.html

segunda-feira, 18 de julho de 2011

PROVAS DO ARTISTA (30)

PANTEÍSTA

Um vôo interceptado:
Tenho as costas presas
Por um visgo azul-celeste.
Não me debato.

E o sol se aproxima,
Estrela de tantas patas,
Pelos fios a leste;
Corre por eles, ouro líquido,
Ígneo sangue
Irrigando a teia.

Em breve incandescerei
Neste pouso forçado
Acima de Géia.

Fraçois Morellet, serigrafia, 1971

sexta-feira, 15 de julho de 2011

PROVAS DO ARTISTA (29)

IMPOSSÍVEL

Uma palavra ofensiva
Leveda em minha língua;
Logo a envolvem
Fios ressentidos,
Num casulo que eu urdo.
Aguardo a metamorfose
Da ríspida pupa
Em alada e leve canção;
Mas isso não acontece,
E a crisálida se enrijece,
Resina viscosa a encobre,
Até que mudo me torne:

Jamais serei poeta
Generoso e nobre.


Marcelo Grassmann, Guerreiro, gravura em metal. (Daqui)

quinta-feira, 14 de julho de 2011

PROVAS DO ARTISTA (28)

METALURGIA POÉTICA

Com estes dedos frios
Tampo os ouvidos,
Mas ainda ouço ruídos
Persistentes
De forja trabalhando
Dentro do meu crânio:

É o claudicante Vulcano
E sua arte dos metais,
Moldando armaduras fictícias
Para meus medos reais.

Peter Brueghel, o Velho, O Alquimista, gravura, 1558

quarta-feira, 13 de julho de 2011

PROVAS DO ARTISTA (27)

PERDA

Dizem haver duas trilhas
Para o que deve ser dito.
Mas por uma ou por outra
Perder-se-á algo estrito.
Ou serão duas ilhas
À escolha do náufrago?

Duas praias vãs, quiçá,
Às quais o escrito vai dar
Em farrapos e exausto.


Maria Bonomi, Mar dos Anjos, xilogravura, 1975 (Daqui)












Site oficial de Maria Bonomi: http://www.mariabonomi.com.br/indexf.htm

segunda-feira, 11 de julho de 2011

PROVAS DO ARTISTA (26)

SONETO

A noite antevista ainda na aurora,
Ressonam as ilusões, esses astros,
E sob o céu total azul-emplastro
Engasta-se turvo amanhã no agora.

Um dia não é suficiente e vasto:
O que quer que sinta pouco vigora,
Nada mais do que rápido antepasto
Na dieta crua que o tempo elabora.

Como cevar-me de planos seguros?
Meu cético apetite não se ilude
E considera a vida um fast food,

Pois num banquete-sem-data futuro
Eu não serei conviva ou convidado,
Senão o prato vivo a ser devorado.

Oswaldo Goeldi, Peixe e Gato, xilogravura, 1927