UVAS
Bonita palavra é ‘doravante’!
Não importa que não preveja
A extensão da vida e o acaso,
Posto que todo avante termine
E tenha prazo,
E haja um muro lá na frente
Que não contornarei.
E daí que não o ultrapasso?!
Os meus passos irão se entender
Com estes sapatos concretos,
Tão ignorantes de futuros caminhos,
De retas, de curvas, de geometrias!
E há este jornal do dia
Lido como renovável pergaminho;
E há este copo de vinho
Meio esvaziado;
E há roupas por despir de um vestuário.
E carros passam lá fora
Com itinerários cifrados.
E você chega agora, os longos cabelos
Molhados da tarde de chuva,
E se queixa dos preços do mercado.
E se põe a lavar uns cachos de uvas,
Verdes uvas.
E amo a sua silhueta contra o basculante
Da cozinha, paz tão minha!
Que importa doravante
Senão as uvas
Tiradas uma a uma ao cacho,
Cuspidos os caroços
Com langor e charme
Enquanto nossos ossos
Ainda estão por baixo
Da carne?
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| Picasso, Escultor e Modelo, água-forte |