46 – natureza-morta (canto de atelier)
Pintei uma natureza-morta
para me lembrar de me tornar o que sou.
Como fundo, uma parede de azulejos banais
e uma nesga de tela voltada contra ela.
Sobre uma mesinha velha objetos do meu convívio:
pincéis sujos mergulhados em aguarrás,
pincéis limpos reunidos em latas de cerveja,
uma paleta imunda sobre monte de jornais.
Situada mais atrás, uma pilha com três livros:
Ilíada, o Rei Lear e O Sobrinho de Rameau, de Diderot,
meus mortos-vivos.
À esquerda, um Klee em reprodução
lembrando-me a necessidade de tornar algo visível
da minha alma de menino,
e uma gravura barata das Donzelas de Avignon,
para almejar em vão a fúria criativa de Picasso.
No centro, ocupando muito espaço,
um velho livro aberto, símbolo do que nunca termino;
sobre ele, um CD com sinfonia de Mahler, a Quinta,
e a capa do Crepúsculo dos Ídolos, de Nietzsche.
Ao lado, trinchas para cobrir grandes superfícies.
À direita, tubos de cores, plasma de quem pinta;
um cinzeiro com um cigarro que queima rápido
suspirando um filete de fumaça,
e, enfim, terminando a peça, um trapo sujo de tinta.