Imagem do cabeçalho: "O Grande Canal de Veneza" (detalhe) de Turner

terça-feira, 8 de abril de 2014

POEMAS EVISCERADOS (14)



NÚMEROS SEM MEMÓRIA

Enfim encontra-se um conjunto
Numérico,
Não mais que despojos,
Desprendida pele seca
Das coisas concretas,
Pulmão que não traga mais ar
Ou pupilas áridas sem o sumo
Da luz.

Não mais dizer mil fios de cabelo,
Ou sete pássaros em bando,
Ou seis pães franceses,
Ou duas décadas de amor,
Ou décimo terceiro salário,
Ou três quilômetros para alcançar
A fronteira,
Ou meia dúzia de laranjas,
Nenhuma medida de carne e osso:
Dedos, braços, pés ou côvados...

Apenas os números sem carga,
Incorpóreos, não mais que sombras
Como as almas do Hades.


2 comentários:

Holostasis disse...

lendo seu poema fiquei com toda aquela referencia rnascentista do número áureo na cabeça, de como o homem é a medida do homem, ai me lembrei do poema do robert frost que me remeteu ao seu... um abraço

Robert Frost - Nothing Gold Can Stay

Nature's first green is gold,
Her hardest hue to hold.
Her early leaf's a flower;
But only so an hour.
Then leaf subsides to leaf,
So Eden sank to grief,
So dawn goes down to day
Nothing gold can stay.

Celso Mendes disse...

Fantástico! Medidas viscerais de poesia pura.

Grande abraço!