Imagem do cabeçalho: "O Grande Canal de Veneza" (detalhe) de Turner

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

FACETAS (27)



O mar, oposto à cidade,
Tem seu trânsito fluido
E invisível
De atemporal indiferença:
Não são batimentos as ondas
Nem oscilações de pêndulo
Que exposto ao sal se oxide.

2

Não engarrafam o trânsito marinho
Os milhões de garrafas ridículas e abstratas
Nele lançadas com dúvidas humanas.

3

O barco humano
É abscesso leve
Na pele marinha
Que mal o sente.

4

O mar nauseado regurgita,
Não pneus, destroços navais,
Ou resíduos plásticos,
Mas os gases insípidos
(que o enfatuam)
Dos nossos credos fantásticos.

5

O mar não julga nem mais nem menos estúpidos
Os nomes dos deuses que nele injetamos
- Poseidon ou Netuno -
Como vazamentos de petroleiros.

6

O mar não tem bocas abertas
Nem cicatrizes de feridas
Cerzidas
Com a linha solta das nossas metas.

Nem garras tem o mar,
Com cem ou mil dedos,
Para reter os náufragos.

São nossos os ossículos
Que as ondas desovam
Na praia:
Falanges e artelhos.


Marcantonio

4 comentários:

Fred Caju disse...

Muito massa o 5. Abraço, camarada.

Eleonora Marino Duarte disse...

"O barco humano
É abscesso leve
Na pele marinha
Que mal o sente."

fico com esta imagem, a imensidão impenetrável do mar.

a foto, o barco na foto, a sua capacidade de mesclar imagem e palavra, é o que me cativa na sua poesia,

parabéns pela permanente criação de quadros literários.

um beijo.

Maria Andrade Vieira disse...

o mar engole e cospe a prepotência humana.

Tania regina Contreiras disse...

O barco humano
É abscesso leve
Na pele marinha
Que mal o sente.

Perfeito, Marquinho!
Abraços,