Imagem do cabeçalho: "O Grande Canal de Veneza" (detalhe) de Turner

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

ABECEDÁRIO (m)



“M”, DE MORTAL

Eu não via um cavalo
Desde o século dezenove,
E agora há meia dúzia deles
Vagando pelas ruas deste bairro.

Observei ontem que um deles, o pardo,
Deitou-se no solo quente da tarde,
Talvez para sentir toda a extensão do próprio corpo.
É o mesmo que dispara sobre calçamento urbano,
Relinchando como um louco. 
Parece não gostar do ser eqüídeo.

Causa espanto o mais velho do bando surreal:
Macilento rocinante nesse entrecho quase rural:
Os ossos sobre suas ancas
Parecem o cabide para a túnica da morte.
Tem olhos sem apetite, embora coma ainda
Do mesmo capim sem fim.
Surpreende que não tenha chagas
Nas patas de aparência empedrada e gasta,
Mas na sua testa já se engasta a protuberância
Do que parece ser um córneo único helicoidal:
É provável que pertença
A alguma forma subjacente
Ao seu destino de besta de carga banal.


Gerhard Richter, Townscape M3, óleo s/ tela, 1968. (Daqui)

7 comentários:

Lara Amaral disse...

Que ricas metáforas. Muito interessante o poema!
Abraço!

Fred Caju disse...

M de maravilhosos também.

Cris de Souza disse...

M de Mago! E Mago é muita coisa...

Beijo desta mortal.

Assis Freitas disse...

capim sem fim: carpir


abraço

p.s. meus cavalos são meus segredos

Eleonora Marino Duarte disse...

a mim também causa espanto os cavalos sem cavalheiros...

belo, Marcantônio!
há de existir um Quixote em seu olhar para salvar os cavalos urbanos.


:)


beijo.

Dalva M. Ferreira disse...

Um contopoema.

Dalva M. Ferreira disse...

O não ver é quase não existir. O poeta, entretanto, teima em ver unicórnios vagando pelas esquinas...