Imagem do cabeçalho: "O Grande Canal de Veneza" (detalhe) de Turner

terça-feira, 19 de março de 2013

ABECEDÁRIO (n)



“N”, DE NADIR

Eu cresço pelo que absorvo,
O sorvo de estrelas a irrigar
A feérica madrugada,
De onde se seguirá a aspiração
Pela manhã tão decidida
A não olhar para trás
E a recusar a via de retorno
Ao Hades.

Para além da cabeça do dia,
Os signos dormentes no ventre da tarde,
O pensamento dobrado ao meio
Por onde o sangue pouco flui
E o conseqüente formigamento
De luzes ocultas que logo se acenderão.

Um pouco mais, e a transfusão
Sanguínea do crepúsculo
Na veia vazante do vazio...

Mas eis no céu outro jorro
De linfa azul-marinho
Com grânulos luminosos nela infusos.

É assim que aumento de tamanho:
Os olhos descerrados,
Incompetentes para chorar,
E os poros em estado dilatado de alerta.


Julian Schnabel, Sem título, técnica mista, 2011. (Daqui)

4 comentários:

Tania regina Contreiras disse...


Eu preciso da via de retorno ao Hades. É cíclico esse meu destino. Ó, que coisa, adorei isso:

Um pouco mais, e a transfusão
Sanguínea do crepúsculo
Na veia vazante do vazio...

Nossa! Saudades de você.
Beijos,

marlene edir severino disse...

e este

..."outro jorro
De linfa azul-marinho"

no céu
a alertar
(faz diferença imensa)

Abraço Marcantonio!

Rejane Martins disse...

Sobre o tamanho que se encerra a beleza, teu Nadir, esta pérola:
http://youtu.be/1H-O1WxDf40
...e um agradecimento especial, não conhecia Julian Schnabel, a delicadeza do óleo em poliéster.

D.Everson disse...

esse poeta n pega leve