“O”, DE OUTRORA
Repare nos sapatos,
Polidos, brilhantes,
De cromo alemão.
Mas beijam o chão.
Repare nos sapatos,
Rotos, baços,
Bagaços sem duração.
E beijam o chão.
Repare nos tênis,
Os que custam poucos níqueis,
Os que valem quinze vezes
Uma boa refeição.
Todos acarinham
E beijam o chão.
Repare nas sandálias,
As de borracha,
Ou aquelas cujas tiras
Sobem pelos tornozelos,
Ou as de couro, sem zelo
Na produção.
Todas feitas para o beija-chão,
O mesmo chão que enterrará
Os pés
Após tantos passos passados.
Por isso é justo que haja
Um museu dos calçados.
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Anselm Kiefer, Die Woge, téc. mista, 1995. (Daqui) |
4 comentários:
...os sem sapatos, como eu - os de pé no chão - caminham na textura, brincam de amarelinha na onda de um cantochão.
Muito do caralho! Ou Muito do calçado, quem sabe.
Parece minha filha mais nova. Ela sempre foi de encucar com umas coisas que eu jamais notaria. Belo tratamento, podologia poética. Abç!
E eu só pensei nos meus pés no chão (literalmente falando, porque gosto de andar sem sandálias) e nos meus pés no chão (metaforicamente falando), que é uma necessidade e uma impossibilidade. Talvez flutuando o museu seja dispensado...rs
Beijos,
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