“P”, DE PLACIDEZ
Não posso contribuir para a enorme
antologia
De poemas sobre o espelho,
Não há o que especular:
Essa imagem que não diverge de mim
Na lâmina fria
É apenas marionete servil
Que movo com auxílio de fios de
luz.
E nem há como supor que seja eu o
reflexo aprisionado
E ela o animal racional que me
observa
Dum extremo quadrangular de outro
mundo:
Tenho alento que a embaça.
E me atenho cegamente às leis da
ótica
Que fui capaz de decorar na escola.
Além do mais, os reflexos da
toalha de cor sanguínea
Pendida do toalheiro (me lembra um
pedaço de carne
Pendurado num gancho de açougue)
E dos objetos de barbearia e higiene
Na pia do banheiro (sobretudo o
sabonete já gasto)
Impossibilitam qualquer divagação metafísica.
![]() |
Anish Kapoor, Cloud Gate, Chicago |
4 comentários:
Este é Marcantonio, que me joga nos labirintos até eu me perder pra me achar! :-) Muito bom.
Beijos,
Antes que o azul esmaeça, eu deliro...
Abç
Dois mundos se contemplam. Serei mais real que a realidade do espelho, só devido ao meu alento?
Fiquei intrigado. Tem tenta coisa nesta poesia- pelo menos pra mim. Gostei! Massa!
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