“J”, DE JUSTIÇA
Não me canso de rever o pôr do sol,
mas estou cansado de ler poemas
que não possa decompor em estrelas.
Não cansa o firmamento que teu corpo é,
mas estou cansado da palavra incorpórea
e sua via contraditória:
exala-se de um organismo carnal e finito
e ainda aspira encarnar um dito imortal.
Não me canso de olhar o céu,
galeria de mutantes esculturas,
mas me fatiga ver a serenidade do papel
conspurcada e ofendida
pelo ruído das rasuras.
Estafam-me as letras, as linhas enfileiradas,
descolaria uma com que enforcar o poema
no limbo do alto da página,
e assistiria o vento pendular das horas
balançar sua lírica ossada.
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Christian Boltanski, Théâtre d'ombres, instalação, 1984. Daqui. |
2 comentários:
Pelo que aparenta, seu papel jamais serena, e seu poema decompôs-e em estrelas, a despeito do seu cansaço.
Bjs
Rossana
Penso em papéis brancos serenos...Existiriam, à frente do poeta?
Beijos,
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