Imagem do cabeçalho: "O Grande Canal de Veneza" (detalhe) de Turner

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

TEMPO DE EXPOSIÇÃO (63)

MARCADORES

A carne é meu relógio sem dígitos
Com um inquietante tique-taque.
Ou meu calendário sensível
E impiedoso,
Grafado por vasos, nervos e vícios,
E onde os feriados e as efemérides
Distantes
Já não se marcam em vermelho
Com o tempo sanguíneo.

Posso fugir à soma abstrata dos anos,
Mas não aos somáticos sinais de subtração.


Irving Penn, Street  Findings, 1999



5 comentários:

Tania regina Contreiras disse...

Eu ando te relendo. Pérolas que precisam ser relidas, com tempo ou sem tempo, que a poesia nos faz recobrar a consciência de que o tempo não existe. Nossa, há poemas absurdamente profundos e originais, sempre, desde quando encontrei o poeta Marcantonio. Dei-me conta do quanto a tua poesia foi um encontro marcante no meu caminho. Reconciliei-me com a dimensão poética da minha alma através da tua poesia. Soube que há poetas não editados, nunca publicados, mas muito, muito bons a apertir de tuas poesias. E cá eu catei um comentário meu de maio de 2010, entre tantos outros, que traduzem bem o quanto tua poesia me foi essencial. Ei-lo:

"Surpreendo-me com o inusitado nos seus textos. Você parece renovar-se a cada instante. Ou é um olhar-se pelos quatro-todos-os-cantos de si, de modo a nada perder, tudo é reciclado em verdadeiras pérolas. E muito bom nisso tudo é que ler você me renova, faz rebentos onde havia terra seca. O vídeo é outra pérola. Como que não: se faz poesia com a palavra, com o olhar, com o silêncio, com os objetos...Maravilhoso, tudo. Você-poeta é uma grata surpresa, um encontro marcante. Parabéns, mesmo!!"

E por aío vai...rs

Mas isso é um comentário ao poema de agora, que é mais uma pérola. MARCADORES é perturbador. Perturbar foi o verbo poético que guiou-me na tua poesia. Inquietar. E, por fim, reencontrar-me. E dizem que poesia não cura. Não sabem o que é cura.
Beijos.
Ah, abrindo a gaveta...encontrei o Natal. Vou levar pro FB.

Adriana Karnal disse...

depois desse lindo comentário da Tania só posso dizer que ela encontrou o ponto perfeito de tua poesia, cura. isso é muito.

Fred Caju disse...

E todos carregam esse relógio (ou bala?) dentro de si.

Cris de Souza disse...

Putz grila!!! A garganta até coçou, depois dessa, somatizarei mais um trago...

(Cadê o isqueiro?)

Daniela Delias disse...

Estive um tempão por aqui, lendo, relendo...coisas lindas deixaste aqui, Marcantonio!
Um beijão