Imagem do cabeçalho: "O Grande Canal de Veneza" (detalhe) de Turner

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

TEMPO DE EXPOSIÇÃO (70)

A VIDA QUE SE POUPA

Há uma luz metafísica
Que frauda a pele da fruta
Sobre a mesa:
Já não é um cadáver
Afastado de sua árvore?

Mas esta urgência
De apetite necrófago
Vê a fruta exuberante, muito viva.

Serei um tipo de verme
Precipitado
Que a devora de imediato
Acima da terra?

Recuso o que ela oculta,
O caroço,
E o cuspo ao solo:
É osso-nave
Que nenhum verme roerá,
Pois ele escapará, aéreo.

Misericordiosa, a fome
Poupa da fruta apenas
Aquele cuspido dejeto,
Justo o que dela não é funéreo
E, projeto, viverá.


Irving Penn, Natureza-morta com Melancia, 1947.

10 comentários:

Eurico disse...

Eis o renovo, o grão
que se insurge e faz
da morta-natureza, a viva,
a que se salva, essa que jaz
e se con/trai,
em nova e bela vida,
rediviva aqui,
na Língua.

Cris de Souza disse...

Para teus poemas não se poupa elogio e todo elogio ainda será pouco.
Se tem um poeta que me espanta é você, tá sabendo, né. Tua poesia é fértil e tem gosto de quero mais.

Beijo, meu mago!

Dario B. disse...

Rapaz... Li, reli e continuo relendo. Só posso te dizer que eu queria ter escrito isso. É fantástico.

Tania regina Contreiras disse...

Dario, eu gostaria de ter escrito TUDO que ele escreve...rs É assim: "Isso!..por que não pensei antes?". Mas, ok, os poetas me traduzem e eu agradeço! rs
Beijos,

gagau disse...

MARAVILHA POETA,LINDO,SIMPLESMENTE LINDO EXUBERANTE..

dade amorim disse...

Muito bom esse poema, muito boa essa metáfora, muito bom tudo que você posta aqui, Marco.

Abração, ótimo ano novo e sempre tua poesia.

Luiza Maciel Nogueira disse...

muito bom Marco, mais até que bom! um ótimo 2012 para ti recheado de arte e poesia e felicidade! beijos

LauraAlberto disse...

comer ou não comer, deixas ficar a questão, camuflada

Abraço
Laura

Lucas Holanda disse...

Poeta, vc detonou nessa aí!

Celso Mendes disse...

É a intelegência vegetal se aproveitando da fome animal para se perpetuar. Beleza te texto, meu caro.

E que suas sementes germinem poesia em 2012! Muita luz, muita paz e, acima de tudo, felicidade.

Grande abraço!