Imagem do cabeçalho: "O Grande Canal de Veneza" (detalhe) de Turner

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

COLEÇÃO PARTICULAR (3)

O AGREGADO

A morte não é um invasor.
Não é senão um hóspede muito educado,
Fleumático e erudito professor de latim
Que ocupa o cômodo mais modesto da casa.
Senta-se conosco à mesa,
E com olhos fixos no prato
Sorve a sopa rala, nossa única refeição,
Limpa com cuidado os lábios no guardanapo,
E da mesa retorna ao quarto
Com um sorriso frugal e de fingida paciência,
De quem se basta apenas com o antepasto.


Georges Rouault, Um Juiz, 1935

11 comentários:

Fred Caju disse...

E nunca teve pressa.

Domingos Barroso disse...

imagino Fernando Pessoa em companhia do ilustre conviva
...


forte abraço, irmão.

Blog do Akira disse...

Concordo, a morte já está.
Um grande abraço.

dade amorim disse...

Estamos todos hospedando essa figura. Poema inteiramente verdadeiro. Mas há quem diga que é preciso esquecer, o que não adianta absolutamente nada.

Beijo, Marco.

Tania regina Contreiras disse...

Eu a chamaria de "agregada", no feminino, pois que a morte é feminina, fina, lânguida e, sim, muito educada. Este vai para a minha coleção também...rs

Beijos,

Tuca Zamagna disse...

Tempão que eu não comentava aqui, hem, mestre Marco! Hoje, acho que esse "fleumático e erudito professor de latim" me puxou pela orelha. O sacana já vem fazendo isso há dias.

Ontem, aliás, ele exagerou. Imagine você que à noite fui me encontrar com a Adriana Radioativa. Enfim, eu consiguia estar pessoalmente com uma das blogos-feras, depois de frustradas tentativas de me encontrar com você, Assis, Beto, Lelena e as "gêmeas".

Pois não é que o "hóspede muito educado" perdeu a linha de vez e me deu uma baita rasteira? O que era para ser uma longa noitada com nossa poeta maranhense (e a amiga que veio ao Rio com ela) foi brutalmente reduzido pela súbita necessidade de as duas retornarem hoje cedo a São Luís, em função de uma tragédia familiar com a amiga. Pior: fui encontrá-las na estação do Metro no Largo do Machado e acabamos, para ganhar tempo, bebendo por ali mesmo, numa adega que, como todas as casas boêmias da área, era point do Hélio Jesuíno. E lá ficamos, a menos de 100 metros da casa em que ele morava; eu com a sinistra sensação de que ele apareceria a qualquer instante e sem poder falar disso com a Adriana, para não incomodar a amiga que estava, é claro, bem jururu. Rapaz, fiquei tão tenso e ansioso que pouco aproveitei desse raro momento, falando pelos 30 cotovelos (logo eu que, como você bem sabe, tenho apenas 17!).

E não pude deixar de notar, numa mesa próxima à nossa, o brilho de "um sorriso frugal e de fingida paciência"...

Abração

Andrea de Godoy Neto disse...

excelente imagem da morte.

fiquei aqui lembrando da figura tão lindamente descrita por saramago no livro as intermitências da morte...
uma morte tão próxima e tão humana

beijo, Marco

Eurico disse...

Difícil comentar, enquanto essa Agregada, aqui, no quarto, olha-me, dissimuladamente.

Abç

Emiliana Vaz disse...

Li esse texto no blog do Tuca,e tomei a liberdade de compartilhar no Face com o link do teu blog.
Consegui ver a dona Morte rondando a casa sorrateira e paciente...
Deu um arrepio de agonia,e ao mesmo tempo uma tranquila certeza.
Ela ronda a todos nós o tempo todo esperando a hora certa de se apresentar.

Cris de Souza disse...

Desde que bati o olho, me espantei com o banquete. Esse poema não é um aperitivo, tá mais para principal prato. Ou seria pato?

Sônia Brandão disse...

É tão educado e silencioso que nem nos damos conta de que está sempre ali pertinho de nós.

bj