Imagem do cabeçalho: "O Grande Canal de Veneza" (detalhe) de Turner

terça-feira, 11 de outubro de 2011

TEMPO DE EXPOSIÇÃO (36)

NOVENTA GRAUS

Um homem tarda na esquina.
Mas não olha para o próprio relógio.
Aquece sob o braço esquerdo
As notícias de um jornal:
Conclames de circo e martirológio.
Essa familiaridade não lhe tira do olhar
Certo pasmo de desterrado:
Parece ter perdido o lugar concreto
Entre tudo o que surge e desaparece
Naquele vértice de ângulo reto.

Talvez venha de perceber ao estacar
Que não há como fugir às esquinas ortogonais,
Desentortá-las numa reta única, clara, definida.
Feliz?
Jamais. Ele soube que não há ex-quinas na vida
Nem no sentido apontado pelo próprio nariz.

Enfim, ele põe o mundo e suas notícias
Na lixeira pública,
E atravessa a rua na coletiva diretriz.
Mas a sua sombra não o segue, fica ali,
Alongada pelo sol baixo da tarde,
Estranha e solitária bissetriz.

Henri Cartier-Bresson, Down Town, New York, 1947

8 comentários:

Lara Amaral disse...

Maravilha, poeta! =)

Mariana disse...

Feliz?
Jamais.

Parece ter perdido o lugar concreto
Entre tudo o que surge e desaparece.

Abraço.

marlene edir severino disse...

Poema e imagem:
belos!

Ricardo Calmon disse...

POETA ÉS SIM E DOS BELOS E INTENSOS VERSOS!

VIVA LA VIDA

Celso Mendes disse...

"Ele soube que não há ex-quinas na vida
Nem no sentido apontado pelo próprio nariz."

Poema na medida exata da desesperança.

Excelente!

abraço.

Tiago do Valle disse...

Muito, muito bom! Ritmada, os sons... Perfeito! Pura arte!

Marcelo Henrique Marques de Souza disse...

Belo poema. Estamos sempre perdendo os lugares concretos. Eles sempre acabam virando poemas.

Abraço

Rejane Martins disse...
Este comentário foi removido pelo autor.