Imagem do cabeçalho: "O Grande Canal de Veneza" (detalhe) de Turner

domingo, 26 de junho de 2011

PROVAS DO ARTISTA (17)

A-HISTÓRICA

Manhã total
E absoluta:
Nada há além
Dessa imersão
Enxuta no azul
Com verniz
Dourado,
Meio denso
Para pássaros
Em vôo
Distraído e
Retardado.

Uma criança
Agora brinca,
Olhos vivos,
Eliminando
Os arquivos
Dentro do meu
Crânio.

Nunca houve
O original
Nem haverá
O sucedâneo:

Jamais alguém
Dissera:
“Eis a questão!”
Jamais alguém
Dissera:
“Vim, vi e venci.”
Jamais alguém
Dissera:
“Assim na terra
Como no céu.”

E nunca existiu
Um dinossauro,
Uma civilização
Perdida
Ou qualquer
Titã.

Absoluta manhã
No livro da vida:
Parece que
Nenhuma outra
Página
Foi ou será lida.

Renina Katz, Cerf-Volant, litografia, 1992



Renina Katz: AQUI

7 comentários:

Fouad Talal disse...

"Elementar meu caro Watson!", algo que Sherlock também nunca disse porque também nunca existiu.

E olha que foi um materialista histórico que escreveu um dia num certo manifesto: "tudo que é sólido se desmancha no ar"

(sobre o casamento com a poesia, comigo só rola um affair, sem maiores compromissos)

abração meu velho!

há palavra disse...

Belo e potente em si, o poema a mim também ressoa o Nietzsche da "Segunda Consideração Intempestiva":

"O homem também se admira de si mesmo por não poder aprender a esquecer..."

Poesiapensamento!

Abraços, bons caminhos...

Celso Mendes disse...

A prova de que pode haver beleza não contaminada por arquivos de memória é essa visão poética de um artista quando realmente sente o momento. A analogia com uma criança foi perfeita: nada mais puro que mente aberta e captante de uma criança.

Abraços!

Menina no Sotão disse...

Será mesmo possível uma manhã ser apenas poesia sem que haja nada mais de humano lá fora? Como seria bom se assim o fosse. rs

bacio e boa semana

Tania regina Contreiras disse...

Muito bom, é essa criança que faz\ do poeta tão original sempre!
Bjos,

Luiza Maciel Nogueira disse...

Magnífico o que pode ser interpretado diante de tão belos olhares

beijos

dade amorim disse...

Às vezes é essa a sensação: o tempo limpo, transparente de clichês ou lugares-comuns - só o tempo e sua experiência tornada primeira.
Beijo.