Imagem do cabeçalho: "O Grande Canal de Veneza" (detalhe) de Turner

domingo, 24 de julho de 2011

PROVAS DO ARTISTA (34)

TRISTE FIGURA

Há momentos de delírio, enfim,
Quando suponho ter na mão um espadim,
Leve como a navalha de Occam,
Com que eu possa estripar as esfinges:

- Proponde enigmas! Vinde!

Na outra mão, égide lustrosa
Para devolver os raios das estrelas
À origem nebulosa:

- Vai de retro, ilusão!

Monto um cavalo magérrimo,
Sem antolhos, esfalfado,
E que jamais foi ferrado,
Seus cascos se gastam na rocha bruta:

- Escuta: precisamos ter os pés no chão!

E um fiel escudeiro. Escudeiro? Escudeiro!

- Cadê o meu escudeiro, ó solidão?


Salvador Dali, Dom Quixote, litografia 

14 comentários:

Analuz disse...

Solidão é condição necessária
a quem vive à captura de silêncios?

Admiro tua arte!

Beijinho Quixotesco e ótima semana!

= )

dade amorim disse...

É fácil se identificar com ele. Mas só na história de Cervantes existe um escudeiro.
Beijo, Marco.

Celso Mendes disse...

A solidão quixotesca, delirante, é condição necessária para criação poética. É quando o poeta explora seus desvarios que as palavras emergem nos mais interessantes textos.

beleza de poema!

abraço.

Ana Ribeiro disse...

Ando cada vez mais encantada e invejosa...
Bj.

Mariana disse...

A solidão é um aprendizado intransferível, infelizmente. Mesmo a experiência pessoal é falha neste quesito, pois experimentar a solidão aos 20 é diferente da dos 30, e outra é a solidão dos 40, que não quer, por ora, imaginar a vindoura. No entanto, ela também é escolha.

Seu poema atualiza imagens muito fortes da solidão, imagens, contudo, que se valem da parcimônia, como a combinar com a magreza do cavalo.

Um dos poemas mais belos dos que tenho lido aqui. Parabéns!

Abraço.

PS. Também ando de ônibus.

Cris de Souza disse...

Belíssima composição!

"- Vai de retro, ilusão!" - gostei disso, até repeti em voz alta.

Como é raro encontrar um sancho pança dando sopa por aí...

Beijo da tua fiel leitora.

Iracema Macedo disse...

Tu propões enigmas e nós vamos!

Eurico disse...

Bem sabemos que não adianta tentarmos afastar a ilusão. Pelo menos no que ela tem de imaginário.
Afinal, a voz que a afasta é do escudeiro, mas quem passa à posteridade é o delirante cavaleiro.

Adelante, Poeta!

Luiza Maciel Nogueira disse...

lindo demais poeta

beijos

Adriana Karnal disse...

o escudeiro sem escudo: solidão
lindo,lindo

marlene edir severino disse...

A solidão e seu silêncio de muro: de doer os ossos!

[Ossos do ofício, poeta...]

Abraço!

Marlene

Menina no Sotão disse...

Li ontem essas linhas, mas apenas hoje eu me permiti realmente uma resposta porque a solidão não me incomoda, é algo que está em mim e praticamente em todo mundo, mas as pessoas olham pra isso com medo, horror, temor. Não sei. A solidão pra mim é uma resposta silenciosa pra tanta coisa. As vezes eu apenas quero a cada vazia, preenchida apenas com as minhas sensações. rs

bacio

Marcelo Henrique Marques de Souza disse...

E o que seria da poesia sem os enigmas?

Abraço

Rejane Martins disse...

litografia: faz tempo que eu li isso, e o sopro ficou gravado
http://youtu.be/Iy2-PCiwDQM