Imagem do cabeçalho: "O Grande Canal de Veneza" (detalhe) de Turner

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

ROSTOS - MODOS DE CRIAR RETRATOS (34)

Não posso crer que a ternura do teu olhar
Deva-se toda ao objeto que contemplas.
É possível que ela seja um desvelo em não ver,
Uma precisão de manter contra a voragem
A parcialidade de uma imagem.
Afinal, que é a visão de uma flor
Senão um capítulo de seu próprio fenescimento?
E que é um pássaro senão uma flor do vento?

Deve haver um pássaro salvo pela tua memória
Que te cause ternura,
Assim como uma flor
Separada de todas as outras flores efêmeras
Pelas quais chorarias.
Sim, é uma flor aérea
Desprendida da terra
Que floresce dentro de ti desde que viste
Uma flor voltar ao nada.

Uma terna visão é uma imagem editada,
De apenas um fotograma constante,
Como este teu retrato carinhoso que faço
Ignorando tudo o que tu foste até agora
E o ser que não serás no futuro distante.

Renoir, Retrato de Madame Henriot, 1877

5 comentários:

Suzana Martins disse...

Uma eterna visão editana no olhar da poesia que escorre entre as letras, imagens e pinceis...

Abraços

Tatiana disse...

Envolvente e belo poema!
A ternura descreveu bem a imagem!

Um abraço carinhoso

Iracema Macedo disse...

às vezes a ternura pode ser isso mesmo, essa delicada e poética forma de não ver o tosco, o grotesco, as pontiagudas farpas de um cotidiano sem pássaros imaginários, sem voos. Que a nossa memória possa sempre salvar o voo de nossos passos e pássaros! Lindo o poema!

Luiza Maciel Nogueira disse...

ah que belo Marco, "E que é um pássaro senão uma flor do vento?"

grande poesia, essa ternura em flor


beijos

Bípede Falante disse...

esse inspira tanta confiança que desconfio *risos*
beijos