Imagem do cabeçalho: "O Grande Canal de Veneza" (detalhe) de Turner

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

PROVAS DO ARTISTA (50)


REMOÇÃO

E as palavras surgem aos poucos
De onde não eram percebidas,
Providentes formigas
Ao redor dos despojos
De um animal maior:

É a sensação morta
Que o poema transporta,
Alheia a si, ela migra:
Que estranha ilusão de sobrevida!


Escher, Fita de Moebius II (formigas)
Xilogravura em três cores, 1963.



6 comentários:

Ana Ribeiro disse...

Que linda descrição do ato de escrever. Sem outras palavras que pudessem se juntar a essas suas...

Analuz disse...

É... palavras são formigas
guardando a essência
do cadáver do dia...

Beijinho com admiração!

Vais disse...

Olá, Marcantonio


A escrita, a imagem, um impacto, uma fita de DNA cheia de formigas. Uma área cimentada que chamamos de terreiro com vasos de gerânios e um ninho de formigas das cortadeiras feito numa moita de guiné nascida num buraco do cimento. Elas começaram a comer os gerânios e suas flores, uma noite vimos a fila de muitas que iam e vinham da moita aos vasos, taquei álcool e botei fogo, nada, elas não paravam e não sabia mais o que fazer. Os gerânios já no talo, depois deles o que seria. Fui a uma loja e o moço explicou com uma expressão trágica me dando um saquinho com uns toquinhos, você coloca e elas carregam até a rainha e matam a rainha, depois que a rainha morre elas vão embora procurar outro ninho, outra rainha. Instrumentalizei as operárias a envenenarem sua rainha. Ficávamos vendo as formigas carregando os toquinhos ao invés das folhas e flores dos gerânios para dentro do ninho.
Outro impacto que me chega, o de uma passagem no livro Uma Aprendizagem ou O livro dos Prazeres da Clarice Lispector:

“_ Não sei mais se no restaurante da Floresta da Tijuca tem galinha ao molho pardo, bem pardo por causa do sangue espesso que eles lá sabem preparar. Quando penso no gosto voraz com que comemos o sangue alheio, dou-me conta de nossa truculência, disse Ulisses.
_ Eu também gosto, disse Lóri a meia voz. Logo eu que seria incapaz de matar uma galinha, tanto gosto delas vivas, mexendo o pescoço feio e procurando minhocas. Não era melhor, quando fomos lá, comer outra coisa? perguntou meio a medo.
_ Claro que devemos comê-la, é preciso não esquecer e respeitar a violência que temos. As pequenas violências nos salvam das grandes. Quem sabe, se não comêssemos os bichos, comeríamos gente com seu sangue. Nossa vida é truculenta, Loreley: nasce-se com sangue e com sangue corta-se para sempre a possibilidade de união perfeita: o cordão umbilical. E muitos são os que morrem com sangue derramado por dentro ou por fora. É preciso acreditar no sangue como parte importante da vida. A truculência é amor também.”

E não consigo achar outra expressão, demasiadamente doido.

Grande abraço pra você.

Daniela Delias disse...

Lindo!

Cris de Souza disse...

eu, formigo- tu formigas- eles formigam... assim descaminha a vida.

Sônia Brandão disse...

As palavras são como sementes, morrem para renascer no poema.

bjs